Kim Feldmann homenageia a fruta mais brasileira de todas

Em forma de polpa congelada, o fruto está presente em quase todo quiosque de praia no Brasil. Foto Reprodução

Do folclore às praias mundiais: Kim Feldmann homenageia a fruta mais brasileira de todas

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“Era uma vez uma tribo indígena que vivia nas florestas do norte do Brasil. Devido ao rápido crescimento populacional, eles passava por uma crise de fome muito grande. Itaki, o chefe da tribo, foi forçado a tomar medidas drásticas para assegurar o bem-estar de seus companheiros. Ele decidiu que, daquele momento em diante, cada criança recém-nascida seria sacrificada para evitar ter mais bocas que alimentar.

Um dia, sua filha Iaça deu luz à uma pequena menina que, de acordo com a nova lei, também deveria ser sacrificada. Iaça ficou arrasada e implorou a seu pai que achasse uma outra alternativa. Sendo um cacique justo, Itaki seguiu com sua decisão e teve sua neta sacrificada. Iaça então se trancou em sua cabana por muitos dias, pedindo ao deus Tupã que mostrasse a seu pai uma maneira diferente de ajudar o povoado.

Na seguinte lua cheia, enquanto deitada ao lado da fogueira, Iaça ouviu o choro de uma criança. Ela se aproximou da porta de sua cabana e viu sua filha, sorrindo, sentada ao lado das raízes de uma palmeira. Iaça correu para alcançar a menina, mas ao aproximar-se a criança desapareceu. Ela chorou intensamente, até morrer.

Na manhã seguinte o seu corpo foi encontrado abraçando ao tronco da mesma palmeira, com um sorriso sereno no rosto e o olhar fixado nas as alturas, onde havia um cacho de frutos roxos pendurados.

Itaki ordenou que os frutos fossem coletados e prensados, obtendo assim um tipo de vinho, o qual eles batizaram de Açaí (Iaça), em memória à sua filha. A partir disso ele pode alimentar seu povo e logo aboliu a lei de sacrifício de recém-nascidos.”

De um conto folclórico às praias do Brasil e tigelas do mundo, o fruto exótico chamado Açaí origina de uma espécie de palmeira (Euterpe Oleracea Mart) que cresce principalmente nas várzeas da Amazônia, pelos estados do Pará, Maranhão, Acre, Amapá e Rondônia, no norte do Brasil. O fruto vem sendo consumido pelos povos locais há tempos, e de diversas maneiras: desde o mingau salgado usado como molho no peixe, medicamentos, até a versão da “pasta cremosa” que conquistou o mundo – com a última variação ganhando sua popularidade não só pelos valores nutricionais que lhe são alegados, mas mais superficialmente pela pancada refrescante e energética que promove.

Sendo o único produtor de açaí, a região norte do Brasil – mais especificamente os arredores de Belém – monopoliza o mercado, já que existe pouca competição. Ainda assim, o próprio fruto apresenta um desafio: o fato de que fermenta extremamente rápido após a colheita. A maioria da produção é transportada para fábricas e agro-indústrias dentro de 24 horas, onde os frutos são processados em polpa, congelados, e destinados a mercados locais, nacionais e internacionais.

Os maiores importadores da polpa são a França, o Canadá, os Estados Unidos, a Espanha e o Japão – os quais fizeram parte da virada do mercado de 1995. Uma palmeira de açaí produz até 20kg de fruta por ano, mas só pode ser colhida fora da época de chuvas. Essa circunstância – junto ao crescimento na demanda, condições precárias de extração, pequena produção e logística de comercialização desordenada – fez do açaí uma opção ‘não tão barata’ para se colocar no carrinho de compras, especialmente fora do Brasil.

O processo da árvore à boca consiste em encharcar o fruto em água para primeiramente produzir um tipo de vinho denso, e em seguida extrair sua polpa revitalizada com o auxílio de máquinas, ou muitas vezes manualmente. Para muitos, esse fruto é um complemento na dieta, ou até mesmo um luxo. No entanto, pesquisas conduzidas em algumas regiões do Brasil mostram que para muitas comunidades locais da Amazônia a palmeira do açaí é umas das espécies de planta mais importante, já que a fruta faz parte de mais que 40% da dieta (por peso) das pessoas. O açaí é considerado como principal produto não derivado da madeira nas margens do Amazonas (quando analisando os lucros que gera), e vem sendo tópico de discussão entre nutricionistas e praticantes de esportes no mundo inteiro.

O fruto vem gradualmente aumentando sua popularidade entre os surfistas, conforme a distribuição da polpa congelada se torna mais acessível e, ao menos no Brasil (onde é também financeiramente mais acessível), está presente em quase todo quiosque na praia, e consequentemente na vida de quase todo surfista. Sua abordagem como “alimento funcional” foi introduzida ao mundo dos esportes pelos praticantes de Jiu-Jitsu, que misturaram a fruta com xarope de guaraná e banana, criando assim o que sugere ser um interessante estimulante natural para atividades físicas intensas. Devido à proximidade existente entre o Jiu-Jitsu e o surfe, o conceito de “tigela de açaí” não poderia ficar em segredo por muito tempo, e logo começou a fazer parte da dieta dos surfistas também.

Independente do romântico ritual de sentar na beira da praia após uma série de exercícios para degustar uma tigela de creme refrescante, é o valor nutricional do fruto o que suporta a sua popularidade comercial e social, mas também o que causa maior polêmica. A grande controvérsia que existe em torno do açaí tem a ver com a atributo mais importante da fruta em relação à saúde de modo geral: a idéia que possui forte capacidade antioxidante. Essa é uma das razões pelas quais o fruto é associado à rotina de surfistas e outros atletas; e também o motivo pelo qual é comumente relacionado à prevenção de doenças cardiovasculares e circulatórias, e até mesmo câncer e perda de peso. No entanto, estudos feitos no Institudo Linus Pauling, por experts em antioxidante, sugere algo diferente.

Açaí cresce principalmente nas várzeas da Amazônia, pelos estados do Pará, Maranhão, Acre, Amapá e Rondônia, no norte do Brasil. Foto Pixabay

Enquanto o açaí pode realmente possuir alto teor de antocianinas (componente que pertence à uma importante classe de fitoquímicos, chamados flavonóides, conhecidos por “proteger” plantas contra raios UV, além de serem responsáveis pela coloração roxa da fruta), quando pesquisando a intensidade desses níveis e seus efeitos no organismo humano, eles não parecem ser tão eficientes quanto normalmente anunciado ao público consumidor. A classe de flavonóides (nesse caso a antocianina) é realmente eficaz na luta contra radicais livres – logo protegendo as células de serem danificadas –, mas apenas quando testados in vitro (em tubos).

Quando os testes são feitos in vivo (no organismo vivo), a concentração de flavonóides nas células são de 100 a 1,000 vezes menores que a concentração de outros antioxidantes, como a vitamina C ou E. Isso se deve ao fato de que ao serem ingeridos, os flavonoides são expostos a ácidos estomacais e enzimas, passando por mudanças em sua estrutura química. Já que são insuficientemente absorvidos pelo organismo, a porcentagem da substância que realmente atua nas células é de mais ou menos 2% do que foi ingerido. Ainda assim existe uma relação entre o açaí (ou melhor, flavonóides) e a diminuída no risco de doenças; apenas não de maneira tão intensa quanto a maioria dos comerciais, lojas e muitas vezes nutricionistas propõem.

A teoria indicada pelo Instituto Linus Pauling é que, ao invés de estimularem efeitos antioxidantes no corpo, os flavonóides atuam mais sutilmente como “inibidores” de um grupo específico de enzimas (chamadas kinases), ajustando assim reações químicas que regulam processos como crescimento, proliferação e remoção de células danificadas. Muitos resultados de experimentos em laboratórios sugerem que há uma correlação entre o aumento de atividade das kinases e o começo de várias doenças crônicas.

Por isso, enquanto as células respondem diretamente ao stress através do aumento e diminuição de reações químicas, quando os flavonóides inibem um grupo específico de enzimas eles estão indiretamente mantendo as funções normais da célula, diminuindo assim o risco de doenças. Em outras palavras, os níveis de flavonóides que se mantém ativos após a ingestão de uma colher de açaí não são fortes o suficiente para combater a produção de radicais-livres cara-a-cara, mas acabam atuando dentro da célula, onde a concentração de flavonóides necessária para influenciar o mecanismo celular é muito mais baixa.

A quantidade de pesquisas indefinidas e/ou em andamento, relacionadas a antioxidantes – bem como o ao próprio açaí –, abrem muito espaço para discussão. Até então existem evidencias suficientes para contra-atacar o mito popular de que o açaí é um “fruto dos céus” – como a sugerem fábulas indígenas e propagandas – mas não para negar a relação (mesmo que indireta) entre o fruto e o surfe, já que o mundo dos esportes é constantemente bombardeado por informações de como melhorar performance através dos supostos benefícios de “alimentos funcionais”.

Independente de seguir a onda ou não, ser surfista significa se deparar com uma tigela de açaí mais cedo ou mais tarde, e quando isso acontecer saberemos que algumas colheradas refrescantes não são o suficiente para passar a arrebentação.

Por  Kim Feldmann

Fonte waves.com.br