Surfe e skate terão mudanças radicais no controle antidoping para Tóquio 2020

Skate atualmente não tem exames antidoping, mas passará a ter (Foto: Gabriel Fricke)
Modelo do surfe tem tolerância à maconha e cocaína e testes apenas durante as etapas do Circuito Mundial, enquanto o skate não tem nenhum sistema de controle; COI trabalha para adaptar as regras

Duas novidades do programa olímpico dos Jogos de Tóquio 2020, o surfe e o skate transformaram-se nas últimas décadas em esportes de alto rendimento, cada vez mais profissionais. Atletas vivem dos patrocínios, vídeos produzidos e ganhos das modalidades, deixando para trás a áurea de amadorismo. Quando o assunto é doping, porém, ambos carregam regras que precisam ser revistas e terão que se adaptar à realidade olímpica e ao controle da Agência Mundial Antidoping. O skate, por questões financeiras, tradicionalmente nunca teve essa regulação e não faz controle antidoping em suas competições. Já o surfe até faz testes em laboratórios credenciados pela Wada, o que começou em 2013, porém, adota modelo diferente dos demais esportes que estarão na próxima Olimpíada e tem uma tolerância para maconha e cocaína.

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– Todas as federações internacionais assinaram o código da Wada e tem que cumprir as regras desse código. Nas Olimpíadas, todos os atletas estão sujeitos ao código do Comitê Olímpico Internacional com relação ao doping – disse o COI em nota enviada à reportagem.

Presidente do COI, Thomas Bach controla de perto a política da entidade com relação ao doping (Foto: AP )

Presidente do COI, Thomas Bach controla de perto a política da entidade com relação ao doping (Foto: AP )

A Wada esclarece que não é uma agência de testes antidoping, e sim é responsável pela política de controle no esporte em geral em prol do jogo-limpo. De acordo com a entidade, as organizações são obrigadas a realizar uma avaliação de risco adequada de doping dentro de seu esporte, além de programas eficazes que testem as substâncias certas no momento certo. Até hoje, nenhum surfista foi suspenso pelo uso de maconha ou cocaína. Os únicos que sofreram punições em relação a doping foram os brasileiros Neco Padaratz, em 2005, e Raoni Monteiro, no ano passado, ambos suspensos pelo uso de substâncias que melhoravam o rendimento.

– Para os testes fora de competição, a organização de cada evento cria um modelo que faz com que os atletas tenham que dizer onde estarão, preenchendo um formulário chamado(RTP) , onde eles podem ser encontrados e testados a qualquer momento, não apenas durante as competições. O teste surpresa, sem aviso prévio, é o alicerce de qualquer programa antidoping bem-sucedido – garante a Wada, que desde maio de 2013 afrouxou a política para que atletas possam fumar maconha sem serem pegos em testes ou suspensos de competições, deixando o limite de THC, substância da canabis, de 15 nanogramas por mililitro para 150 nanogramas.

Surfe não faz testes fora do período de competição

Para 2020, a cúpula do Comitê Olímpico Internacional (COI) está trabalhando em conjunto com a Associação Internacional de Surfe (ISA) para avaliar os critérios de classificação e algumas das regras que serão adaptadas para o evento. A Liga Mundial de Surfe (WSL), que representa dois mil surfistas profissionais, incluindo a elite e a divisão de acesso, liberou os seus atletas para a Olimpíada do Japão e se colocou à disposição para ajudar. Entre as mudanças pelas quais o esporte vai atravessar, a política antidoping ainda é uma questão polêmica e não definida.

Taj Burrow ficou 18 anos no Circuito Mundial de Surfe e lembra da época que não havia antidoping (Foto: WSL / Kirstin)

Taj Burrow ficou 18 anos no Circuito Mundial de Surfe e lembra da época que não havia antidoping (Foto: WSL / Kirstin)

A ISA se opõe ao uso de substâncias e métodos proibidos e apoia incondicionalmente a postura do COI e da Wada. Desde 2013, a WSL adotou uma política antidoping, com exames regulares ao longo da temporada. O surfe tem algumas peculiaridades e uma tolerância para o uso das chamadas “drogas recreativas”, como a maconha e a cocaína. Neste caso, o surfista só é punido a partir da terceira vez que é pego, já que é considerado que estas drogas não trazem uma vantagem à performance. Nas duas primeiras, ele só é advertido e pode ser encaminhado para um programa de reabilitação. No entanto, as substâncias que melhoram o desempenho, como anabolizantes e esteroides, provocam uma dura punição, como ocorreu com Raoni Monteiro, suspenso por dois anos.

Porém, o surfe não faz testes fora do período de competição. Ou seja, não preenche totalmente o que pede o código da Wada. Hoje, um surfista no período de férias ou fora de uma etapa do Circuito Mundial não é testado pela WSL. Comissário adjunto da WSL, Renato Hickel comentou sobre a política antidoping da WSL na etapa brasileira, em maio. Segundo ele, a entidade segue o modelo da Agência Mundial Antidoping (Wada) e analisa as amostras em laboratórios credenciados pelo órgão. Os surfistas da elite são submetidos a testes somente durante as 11 etapas do Circuito Mundial.

– Os atletas podem testar positivo para as drogas recreativas por até três vezes, podendo ser suspensos também. Mas desde o primeiro caso, ele já passa por tratamento. A política antidoping da WSL é baseada nos procedimentos da Agência Mundial Antidoping (Wada). A gente faz uma serie de testes ao longo do ano, há três anos. Os testes não são anunciados, eles acontecem de surpresa e os atletas são selecionados aleatoriamente. Geralmente, eu escolho os vencedores do round 3 ou os perdedores das quartas de final, dependendo do cronograma de cada campeonato. A gente testa de 10 a 14 atletas por prova em quase todas as etapas, daí o elemento surpresa, o atleta não sabe que vai ser testado, por exemplo, aqui no Rio de Janeiro – explica Renato.

Skate não tem controle antidoping

No caso do skate, diferentemente do surfe, tradicionalmente não são realizados exames antidoping. É o que explica o vice-presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSK), Ed Scander. De acordo com ele, os testes são muito caros.

– O skate tem uma deficiência financeira para poder fazer exames antidoping em todas as provas, já que isso gera um custo muito grande, não é todo laboratório que consegue fazer. Por isso, atualmente não existe no cenário esportivo do skate exames antidoping. Não existe por uma questão financeira, já que sempre enfrentamos desafios para viabilizar os eventos, seja na parte de estrutura ou premiação – comentou.

Ed Scander, vice-presidente da CBSK, diz que nunca ouviu falar em programas de doping no skate (Foto: Rafael Valesi)

Ed Scander, vice-presidente da CBSK, diz que nunca ouviu falar em programas de doping no skate (Foto: Rafael Valesi)

Tido como um dos mais promissores skatistas da atualidade e possível candidato a representar o Brasil em Tóquio 2020, o gaúcho Carlos Ribeiro (conheça a história dele), que mora na cidade de Long Beach, na Califórnia, reiterou que, nos torneios que participa, nunca teve conhecimento desse tipo de teste.

– Eu nunca ouvi falar em exames antidoping em campeonatos – falou.

Outro grande nome da modalidade, Rony Gomes, de 25 anos, apelidado no início da carreira de Bóbinho pela semelhança física com Bob Burnquist, reiterou o que disse Carlos Ribeiro.

– Hoje em dia realmente não acontecem exames antidopings. Não sei o motivo , mas acho que até então não era necessário. Acho que não haverá problemas . Como em todos os esportes, há atletas que usam e há os que não usam . Vai depender do skatista optar por participar e deixar de usar ou correr o risco de talvez não poder – explicou o jovem competidor que, em 2010, seu primeiro ano como profissional, foi foi vice-colocado na etapa de Roma do Campeonato Mundial em 2010 e segundo lugar no Pro Rad.

Esperança do street feminino ao lado de nomes como Leticia Bufoni e Pamela Rosa, Monica Torres, participante da Street League Skateboarding, falou que nunca passou por exames em torneios.

– Eu nunca ouvi dizer que em algum campeonato rolou antidoping. Acredito que essa sera a primeira vez. Drogas existem em todo lugar, e com o esporte não é diferente. Da mesma forma que é no futebol, na natação, no skate vai ser igual, tudo vai depender dos skatistas que irão ser selecionados – explicou.

Carlos Ribeiro é skatista profissional e disse desconhecer exames antidoping em campeonatos (Foto: Divulgação / Nike)

Carlos Ribeiro é skatista profissional e disse desconhecer exames antidoping em campeonatos (Foto: Divulgação / Nike)

Apesar disso, o dirigente revelou que há conversas na Wada para relaxar a política de antidoping com relação às drogas recreativas, como a maconha e o álcool. Contudo, Ed Scander, vice da CBSk, ressalta que a maioria dos skatistas de alto rendimento não faz uso de quaisquer das substâncias citadas, já que elas não apresentam nenhum tipo de melhora na performance esportiva. Pelo contrário.

– Vai ser tranquilo. A Wada está mudando suas regras, sua legislação, até porque, por exemplo, no caso do skate, os poucos atletas que usam, o fazem de forma recreativa, não é algo que gere uma melhora na performance. Pelo contrário, atrapalha. Os que gostam usam álcool, etc. São substâncias que não ajudam a ter uma performance melhor. Quem tem índice para chegar na Olimpíada não faz uso dessas substâncias. É um ou outro, e da população em geral. Afinal, as drogas são um problema de saúde pública do Brasil e do mundo – acrescentou.

Kelly Slater: “Ninguém ali é seu pai ou sua mãe”

Onze vezes campeão do mundo, o americano Kelly Slater é contra a invasão da privacidade dos atletas, um dos pilares citados pela Wada como necessário para um controle antidoping bem-sucedido. Em entrevistas sobre o assunto, o surfista concordou que é necessário um controle para evitar trapaças. A WSL convidou o COI para as etapas da Austrália em 2016, e garantiu através do diretor global Graham Stapelberg que o doping é um assunto que será atendido de acordo com o que a Wada e o COI pedem. Com tudo exposto, Kelly tem suas ressalvas.

– Eu percebo uma pressão de fora, porque fazemos parte de um esporte profissional e estamos tentamos aumentar cada vez mais o profissionalismo no surfe. Muita gente diz: “Vai lá e faz o teste para mostrar que está limpo”. Se a ideia de testar as pessoas é descobrir se elas estão trapaceando, acho que esse é o propósito, o objetivo. Não acho necessário invadir a vida pessoal de uma pessoa pelas suas escolhas individuais. Ninguém ali é seu pai ou sua mãe, não é a sua família para ficar te dizendo o que fazer e não fazer. As pessoas vão fazer o que elas quiserem e não há como impedir isso. O fato de a WSL fazer testes não me aborrece. Eu consigo me controlar numa boa – disse Slater.

Kelly Slater, lenda do surfe e ainda na ativa, tem sua visão pessoal sobre a política antidoping (Foto: Divulgação/WSL)

Kelly Slater, lenda do surfe e ainda na ativa, tem sua visão pessoal sobre a política antidoping (Foto: Divulgação/WSL)

Taj Burrow, que se aposentou na etapa de Fiji, no ano passado, e viu ao longo de décadas a evolução da política no circuito, comentou sobre as diferenças do período em que começou até a temporada de sua aposentadoria. Vice-campeão mundial em 1999 e 2007, oito vezes top 5 e outras três como top 10 em seus 18 anos na elite, australiano de 38 anos vem de um tempo em que não havia nenhum controle em relação às drogas. As festas rolavam soltas, em contraste com um ambiente mais sério das Olimpíadas.

– A mudança dos tempos em que eu comecei até hoje, é que naquela época simplesmente não se realizava nenhum tipo de teste. Acho importante termos um controle para que todos os surfistas se comportem. Quando eu comecei no Tour, era tudo bem mais louco, as pessoas gostavam muito mais das festas, era uma coisa mais selvagem. Hoje, é tudo mais sério e profissional, com regras mais profissionais. Você é visto como um atleta profissional, enquanto no passado era só diversão. Atualmente, todos se comportam bem e são extremamente profissionais – revelou Burrow.

A ISA, responsável por gerir o surfe na Olimpíada ao lado do COI, garante que não irá tolerar o doping e que apoia plenamente as orientações do Comitê Olímpico Internacional. A entidade faz testes dentro e fora de competições. Campeão mundial júnior de 2016 e aposta para os Jogos de Tóquio 2020, Wesley Dantas mostrou-se a favor da política antidoping. O caçula da família de Wiggolly, top da elite da WSL, já realizou testes e espera fazer parte da delegação verde e amarela na Olimpíada.

– Eu acho muito bom (ter uma política antidoping), isto mostra que as pessoas estão preparadas para surfar sem algo no sangue. Eu ainda não sei se serei convocado, mas, se eu for, representarei muito bem o Brasil. A ISA é muito rígida, nem energético pode tomar – disse o atleta.

Fonte globoesporte.globo.com