Steven Allain comenta sobre A.I. – Kissed By God

O estilo agressivo e único de Andy marcou o surf para sempre. Foto Divulgação

Éramos junkies

Contar a historia de Andy Irons nunca seria uma tarefa fácil.

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Confesso que ao saber que A.I. – Kissed By God é um filme aprovado pela família Irons, fiquei com um pé atrás. Achei que, assim como na época de sua morte, em 2010, sua família faria de tudo para apontar uma causa que não fosse o abuso de drogas, na tentativa de resguardar a memória do tricampeão mundial.

Me preparando para uma “passada de pano”, apertei o play.

Logo no primeiro minuto, percebi que minha ressalva era injustificada. Bruce Irons abre o filme segurando as lágrimas e dali para frente, entrega-se com brutal honestidade. Bruce carrega o filme com depoimentos honestos, auto-críticos e sobrecarregados de emoção. Sua proximidade com o irmão e sua dor são quase palpáveis através da tela.

 O pôster retrata bem o tema central do filme -- a bipolaridade de Andy

Kissed By God segue uma ordem cronológica e no inicio conta o que já se imagina: a infância dos Irons no Kauai, o ingresso nas competições desde muito cedo e posteriormente as brigas e rivalidade entre os dois irmãos.

Mas não demora para que revelações surpreendentes apareçam: uma overdose na Indonésia em 1999, quando Andy por pouco não perdeu a vida; o primeiro surto psicótico, na Austrália; o diagnóstico de bipolaridade e o uso de drogas pesadas.

O que mais impressiona é a fragilidade de Andy. Enquanto o publico via uma imagem de coragem, confiança e bravado, a verdade é que o havaiano era inseguro, instável e buscava constantemente aprovação do mundo ao seu redor — fosse de seus amigos mais próximos ou de fãs que ele nunca havia visto na vida. Mentalmente, um dia Andy estava no topo do mundo, e no outro, no fundo do poço.

Depois da overdose e do surto, Andy cai do Tour e seu futuro parece incerto. Mas algo clica em sua mente e o surfista bipolar, drogado, rebaixado e sem perspectivas, ressurge como um monstro competitivo. Volta ao CT, conquista 3 títulos mundiais seguidos, protagoniza a maior rivalidade na historia do surf e vence o invencível Kelly Slater.

Foi uma fase gloriosa para Andy: conquistou sua futura esposa, Lyndie, e chegou no topo do surf competitivo. Mas seus demônios nunca estavam longe.

 Andy vs. Kelly, a maior rivalidade na história do esporte
Andy vs. Kelly, a maior rivalidade na história do esporte

Um dos entrevistados do filme é o Dr. Andrew Nierenberg, professor de Harvard especialista em bipolaridade. Ele explica que é comum para pessoas que sofrem da condição desenvolver um foco extraordinário para certas atividades. Era o caso de Andy: quando focou na competição, tornou-se quase imbatível — mas isso não queria dizer que ele estava curado. Mesmo vencendo tudo, ele entrou de cabeça nas drogas.

A impressão que se tem ao assistir o filme, é a de que muita gente próxima de Andy sabia que as coisas não iam bem — mas ninguém tentou realmente ajudá-lo, até que fosse tarde demais.

Meu irmão ganhou aquele campeonato virado de pó e pílulas”, relata Bruce sobre a vitoria de Andy no evento The Search, no Chile, em 2007. “A verdade é que nos éramos uns junkies.”

 Para toda a negatividade, havia o lado oposto, positivo
Para toda a negatividade, havia o lado oposto, positivo

Eu estava naquele campeonato. Todo mundo — mídia, atletas, organização — sabia que Andy estava virado, bastava olhar em seu rosto. Mas o consenso não era um de preocupação, mas sim de admiração. Algo do tipo “o Andy é foda, ele vence mesmo estando acordado há dois dias cheirando pó. Que lenda!”.

O filme nos obriga a refletir e fazer um mea culpa. Todo mundo das internas do mercado parecia aplaudir o “comportamento de rock star” de Andy, sem perceber — ou sem querer perceber — que na verdade assistíamos a um viciado entrando num caminho sem volta.

A excelência de A.I. – Kissed By God está justamente no fato de que o filme não foge da verdade e traz revelações de partir o coração — como a última mensagem que Andy deixou para a esposa, poucas horas antes de morrer.

Ao lado de Sea of Darkness e Fábio Fabuloso, é o melhor documentário já produzido no surf.

POR STEVEN ALLAIN

Fonte moist.com.br