O homem porororca

Por Fred D’orey

Morando em Bali percebi que o Bukit e o North Shore de Oahu têm mais coisas em comum do que só altas ondas. Pra começo de conversa ambos viraram centros de surf capazes de atrair toda espécie de fauna surfística.

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Mas o que mais chama a atenção no Bukit é a quantidade de prego sem noção fantasiado de surfista. Parece que neguinho já compra a prancha na loja da esquina com peruca loira, tatuagem tribal, barbinha hipster e moto com rack lateral. Só falta aprender a ficar em pé. Mas também vem muita gente bacana e importante da nossa tribo. É um tal do master stylist Rob Machado tomando café com a família bem ao lado, o cinegrafista Taylor Steele descendo a caverna de Uluwatu com seu séquito, o anarquista gente fina Christian Fletcher malucão nos warungs curtindo o final de tarde, ou os irmãos Vaz em trânsito de Sumbawa pro Brasil. Toda essa galera eu encontrei numa só tarde de Março.

Nesse mesmo dia fui pra dentro d’agua em Uluwatu e dei de cara no outside com o paranaense Sergio Laus, talvez o maior expert mundial em pororocas. Apesar de já ter lido um número infindável de matérias sobre suas descobertas na amazônia, ainda não conhecia. Mas em dois minutos de conversa decidi escrever sobre ele, que tinha acabado de surfar as maiores e melhores ondas de rio do mundo. Seus olhos brilhavam ao contar da pororoca da India. Aliás, seus olhos brilhavam sem parar porque é isso que costuma acontecer quando seguimos nosso coração e as coisas dão certo. Sempre quis saber tudo sobre as pororocas e mais sobre o excêntrico Serginho. Marcamos de nos falar nos próximos dias.

Sentamos no Lands End pra tomar um cafe, e fui descobrindo um outro mundo. Minha primeira pergunta foi – mas porque se meter no meio do mato pra surfar? O cara abriu um sorriso daqui até o Pará e sem vacilar respondeu- “vontade de surfar a onda mais perfeita e longa do planeta”. Tudo começou em 98, quando Eraldo Gueiros e Guga Arruda, sem estrutura, surfaram com sucesso moderado a pororoca do rio Araguari. Serginho ficou louco na aventura e fez dessa busca sua missão maior. Em 2000 ele já estava caçando onda na floresta. Foi aprendendo que os melhores meses são no inverno amazônico, de janeiro a maio, quando chove mais e os rios ficam cheios. ” É como se fosse um tsunami programado, uma onda por dia, com um volume absurdo de água empurrando a onda”, ele conta. Passou uma década explorando as melhores curvas do rio e seus bancos, onde a onda se enrosca, fica de pé e os tubos acontecem por kilometros rio acima. Laus chegava a passar cinco meses na selva. Até que em 2014 o rio Araguari secou devido a construção da hidroelétrica Ferreira Gomes e a criação de búfalos, que assoreou os fundos, pondo um triste fim naquela que já foi considerada a melhor onda de rio do mundo.

A palavra pororoca é de origem indígena, tupi, e quer dizer estrondo. Isso porque antes mesmo dela ser avistada, um barulho ensurdecedor a precede. Essa onda única acontece na entrada da maré cheia, e é quase que uma batalha diária medindo forças entre mar e rio. E nesse embate é bom o homem tomar bastante cuidado. Árvores, casas, animais são arrastados. Serginho já perdeu quatro lanchas e pelo menos dez câmeras. “Já passei muita roubada”, ele conta rindo. Em 2004, descobriu que havia até uma associação de bore riders (surfistas de pororoca) na França e na Inglaterra, e foi até lá trocar experiências. As ondas não eram lá essas coisas. Bem diferente da pororoca chinesa, no rio Qiantang, que ele viria a surfar em 2008 e 2011. “Essa onda era bem maior e mais longa do que as da Europa, mas ainda não era igual a brasileira porque era meio cheia”. Em 2011, Bruno Santos e Tom Curren surfaram a pororoca da Sumatra e ganharam manchetes nos principais veículos do surf do mundo com ondas lisas e tubulares. Dois anos depois, Serginho também riscava essa onda do seu mapa. Dessa vez com o seu parceiro Everaldo Pato.

Mas a melhor onda ainda estava por vir. Em março aconteceria uma tal super lua e os rumores na comunidade bore sobre a pororoca da India ecoavam cada vez mais alto. Serginho e Pato se mandaram pro estuário do rio Hooghly e deram um jeito de montar a expedição com equipamentos e recursos locais. Só encontrar a lancha e o jetski, negociar com os proprietários e com as autoridades, e depois rebocar por terríveis estradas indianas do mar até o ‘line up’ já valem um roteiro de filme misto de comédia com aventura. Sem falar em drama ecológico, pois o rio é completamente poluído com todo tipo de esgoto urbano e industrial. “Era tudo nojento. Eu vi três corpos boiando, muitos animais mortos, a água era imunda”, ele conta. Mas e a onda? “Essa é a melhor onda de rio do mundo. A maior, a mais pesada, a mais forte. A gente surfou, mas tava longe de ter a estrutura certa pra aproveitar a onda. Só sei que vou voltar pra Hooghly com lancha e jet pra pegar os tubos que eu vi. Só sei que vou voltar”, conta abrindo o tal sorriso até o Pará.

Fonte totemnet.com.br