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Novas estradas põem em risco o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses

Por Maria Tereza Jorge Pádua

Paulo Nogueira Neto sempre me disse que o Parque Nacional mais espetacular do Brasil é o dos Lençóis Maranhenses, no estado do Maranhão, estabelecido em 1981, com uma área de 155 mil hectares. Além da extraordinária paisagem de suas extensas dunas de areia branca lembrando lençóis, esse parque guarda espécies de três biomas: Amazônia, Cerrado e Caatinga, contendo restingas, mangues, lagoas e praias. E único com estas características no Brasil e, quiçá, no mundo.

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Uma notícia recente, publicada em jornal conhecido, disse mais ou menos o seguinte: “se você receia pelo futuro do parque visite-o o quanto antes”. A matéria se referia a dois acessos que serão asfaltados e chegarão aos povoados próximos de Santo Amaro do Maranhão e Barreirinha. Já existem milhares de pessoas vivendo irregularmente dentro do parque e as margens das novas estradas incentivarão novas ocupações. Ou seja, os acessos aumentam sem que se ataque o problema principal: a falta de regularização fundiária na região e dentro do Parque. Por isso, o gestor do Parque Nacional me repetiu as mesmas palavras – “visite-o agora”.

Uma das joias mais espetaculares do sistema brasileiro pode ser novamente mastigada, devorada, “comida”, termo usado por Fernando Fernandez, em detrimento das gerações futuras ou das nossas crianças de hoje, que porventura venham a gostar desta “esquisitice” chamada Parque Nacional.

lagoas naturais. Foto: Patrick Emin

Lagos naturais. Foto: Patrick Emin

O quanto os novos acessos ou estradas que unem Maranhão à Paraíba, ou Barreirinha a São Luiz, contribuirão para a implementação ou para a destruição do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses depende das normas estabelecidas, e se serão ou não obedecidas. Nenhuma das duas estradas previstas corta o Parque Nacional. A mais “perigosa” delas chegará ao povoado de Santo Amaro do Maranhão. A outra passará a mais de 30 km de distância. Estradas asfaltadas aumentam o conforto para visitar os atrativos da região. É preciso que se tomem providências como criar estacionamentos externos, cuidar das áreas de preservação permanente e exigir que os cursos de água não sejam interrompidos. O ICMBio deve exigi-las.

Para propiciar tal acesso e aumento expressivo de visitação pública, é necessário também que o Parque dos Lençóis aumente seu efetivo. Hoje existem 4 funcionários no campo para guardar esta joia, enquanto seu plano de manejo prevê mais de cem funcionários.

Como sempre, almeja-se o “ desenvolvimento do turismo” sem as medidas fundamentais de implementação do Parque Nacional, fato comum no Sistema Brasileiro de Unidades de Conservação. O país se orgulha em divulgar que possui 320 áreas protegidas federais e outras 300 estaduais, mas se esquece do básico: é preciso que elas sejam bem manejadas para que tenham alguma esperança de futuro. Do jeito que estão, vamos perdê-las, cedo ou tarde.

Quando este Parque Nacional foi criado existiam em seu interior 140 famílias. O turismo desordenado e sem controle atraiu 7 mil pessoas para os seus limites ou para o seu interior. O que era uma pequeníssima vila é hoje o município que mais cresce na região — Santo Amaro. Até dejetos de porco são encontrados nas lagoas do Parque Nacional. Quem sabe o ministro de meio ambiente atual fara algo para salvar esta maravilha da natureza, única no mundo?

Os Parques Nacionais não são do ICMBio. São bens de uso comum do povo brasileiro. O ICMBio deve conservar essas áreas precisamente para o povo brasileiro. Assim os Parques Nacionais deveriam ser entendidos, e não como fazendas abandonadas à própria sorte. Eles são fundamentais para a preservação da biodiversidade e para ajudar a prover os serviços ambientais tão necessários à nossa qualidade de vida. São ainda essenciais para melhorar as oportunidades de progresso dos povoados do seu entorno.

Lagoa natural nos Lençóis Maranhenses. Os degraus cuidadosamente esculpidos pelo vento na areia. Foto: Leandro do Nascimento

Lagoa natural nos Lençóis Maranhenses. Os degraus cuidadosamente esculpidos pelo vento na areia. Foto: Leandro do Nascimento

Fonte oeco.org.br