Nazaré Challenge deixa vários lesionados e provoca debate sobre segurança

Damien_Hobgood (USA), Nazaré. Foto Masurel/ WSL

Os guerreiros feridos no Desafio de Nazaré
O evento inaugural na monstruosidade portuguesa deixou vários lesionados e provocou um debate sobre segurança.

Publicidade

Veja o que Hobgood, de Macedo, Lamb e Baker tem a dizer.

By Dashel Pierson

Para muitos participantes do primeiro Nazaré Challenge – que teve início na terça-feira passada na aterrorizante monstruosidade portuguesa – o dia parecia mais o cenário de um teste de sobrevivência do que um evento competitivo. O beach break em águas profundas tornou-se a linha de frente caótica de um campo de batalha, com bombas surgindo de todas as direções e pouco espaço para escapar.

Não é nenhuma surpresa que um punhado dos 24 inscritos deixou a competição com lesões físicas e alguma forma de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático).

Nos dias que antecederam o Desafio da Nazaré, as ondas foram consideradas demasiado grandes e violentas para surfar – nem sequer de tow-in, esqueça na remada. Até recentemente, a onda só vinha sendo surfada com a assistência de jet-skis ao atingir um certo tamanho – Garret McNamara chegou a dropar em Nazaré a altamente especulada onda de “100 pés”. Mas o ressurgimento do surf de ondas grandes na remada está invertendo os conceitos do que é possível ou não, restabelecendo as definições do que um homem (ou mulher) pode fazer com suas próprias mãos.
O evento inaugural do Circuito Mundial de Ondas Grandes em Nazaré será lembrado como um acontecimento inesquecível – mas não como os dois últimos desafios de Pe’ahi, que foram históricos por exibir uma abundância de surf progressivo. Não, o mais novo membro da Big Wave Tour será lembrado como um dia de sobrevivência, um no qual as limitações físicas do que é possível tornaram-se muito reais. Isso deixou muitos competidores questionando se o risco valeu a recompensa. Conversamos Damien Hobgood, Nic Lamb e João de Macedo para escutar apenas algumas das histórias angustiantes que ocorreram naquele dia.

Damo: Eu voltei pra casa com o rabo entre as pernas. Acho que ficaram algumas cicatrizes físicas e talvez algumas mentais e do ego, também.

Ao final do dia, acho que muitas pessoas estavam se perguntando: ‘será que o risco realmente valeu a recompensa?’ Para mim e definitivamente algumas outras pessoas, ficamos na dúvida. Eu não sei se valeu a pena, especialmente em um cenário de competição. Em um campeonato, você tem que colocar-se na área em que os ondas quebram e se uma onda vier você tem que ir. Você realmente não se importa com o que está vindo atrás, porque pode ser que você não tenha outra chance para ir novamente. Quando você está num sessão de freesurf, você pode esperar até a última onda da série.

“Ficamos felizes em apenas escapar vivos.”
– Damien Hobgood

Você pode até pegar a onda perfeita e fazer tudo certo lá fora, mas a saída da onda vai ser na zona da morte. Uma onda surfada com perfeição ainda assim o coloca num lugar muito perigoso.
Eu estava tentando sair para a minha próxima bateria, e estava posicionado no sled do jet-ski, segurando a minha prancha. Do sled é meio difícil ver o que está à sua frente. Mas, de repente, vi uma onda vindo da esquerda e uma onda vindo da direita. Eu não sei se nós poderíamos ter dado a volta a tempo. Ele estava fechando em nossa direção de ambos os lados. Então ele [Garret McNamara] só teve que acelerar e era uma rampa de decolagem perfeita. Parecia uma rampa de motocross do Travis Pastrana. À medida que chegamos ao topo, tudo que eu vi foi o G-Mac saltar e fiquei naquela, ‘isso não é bom quando o piloto salta fora.’ Então, tentei me afastar do jet-ski também, mas do sled não dá pra você obter muita alavancagem. Ai o tempo parou – eu fiquei no ar para sempre. Foi quando, como um recebedor de futebol americano esperando para pegar a bola, mas sendo atingido pelo adversário antes, a onda me bateu como um saco de tijolos. Fui desintegrado. Realmente não sei o que aconteceu depois disso. Quando voltei a mim meu colete havia inflado e eu estava na zona da morte. Não havia ninguém por perto. Levei cerca de quatro ou cinco ondas na cabeça, então Abe Lerner saiu do nada e me levou para a praia.

Tive uma concussão padrão, eu estava vendo estrelas. Ainda tenho uma pequena dor de cabeça, mas me sinto melhor a cada dia. Felizmente tinha meu capuz vestido, acho que ajudou para que me minha cabeça não fosse aberta completamente. Depois disso, eu estava acabado. Mal posso lidar com essas ondas quando estou 100%. Teria sido estúpido voltar para o outside depois disso. Eu não estava nem remotamente pensando nisso.

E aquele cara, Tom Butler – eu não sei o que aconteceu, se foi sua quilha ou sua prancha, mas parecia que alguém pegou uma faca e cortou sua orelha do topo até o canal auditivo. Estava em duas partes. Mas essa não era nem mesmo sua maior preocupação. Ele estava mais preocupado com a quantidade de água que havia entrado nos seus pulmões. Eles tinham uma bolsa sobre ele e depois o levaram para o hospital.

Acho que foi possível ver isso na final, como poucas ondas foram surfadas. A quantidade de energia necessária para cada bateria era uma loucura. Não acho que as pessoas se deram conta de o quão casca grossa o Jamie Mitchell foi para ter a energia suficiente para fazer o que ele fez na final. Quando a final chegou, acho que muitas pessoas estavam pensando algo do tipo, “Eu vou remar pro outside e se uma onda vier, veio. Se não, nem me importo. Todo mundo estava empolgado que ninguém ficou realmente machucado. Ficamos felizes em apenas escapar vivos.

João de Macedo: Foi um evento de sonho. Na final, quase completei um drop louco, e se eu tivesse, acho que teria disputado o primeiro lugar como Jamie [Mitchell]. Estava no limite do que é possível surfar na remada. Acho sensacional que as pessoas estavam questionando se foi muito perigoso. É disso que Nazaré se trata – de expandir os limites. É por isso que os melhores surfistas vêm aqui. Esse é o futuro, bem aqui. Nazaré mereceu seu lugar no alto escalão das incríveis ondas gigantes.

Você pode ser levado para o outside, mas você não está no canal. Você não pode simplesmente fazer seu surf e pedir ajuda a qualquer um. A equipe de segurança com jet-skis é tão crucial, porque mais cedo ou mais tarde, algo vai acontecer com você. Faz com a estupidez do ato seja menor.

Em nenhum momento perdi a minha consciência durante o evento, como aconteceu com alguns dos outros. Não foi nada muito crítico, mas na primeira bateria, minha prancha bateu no minha têmpora. Eu nem cheguei a notar. E no final do dia, bati no fundo em um dos tantos caldos pesados. Eu estava tremendo, com um pouco de hipotermia. Estávamos todos bem porque estávamos respirando, mas estávamos falando, tipo, ‘uau, isso foi insano.’ Eu senti como se minha cabeça fosse explodir, eu tive uma pequena concussão, meus olhos estavam inchados. O médico da WSL estava constatando isso e me dizendo para não surfar nos próximos dias.

Esses caras são os melhores do mundo. Vê-los em Portugal nas condições intensas daquele dia, foi muito legal. O nível de desempenho explodiu. Senti muito orgulho sendo de Portugal e participando dessas sessões com esses caras. Eles são uns animais.

Nic Lamb: É desta onda que se trata o Big Wave Tour! Ondas do tamanho de uma montanha, risco e perigo inerente são essencialmente o ethos do Tour. Se você não está disposto, tudo bem – tome um assento, sorria e desfrute do show. Ninguém está sendo forçado a colocar uma camiseta de competição. As pessoas precisam apoiar aqueles que dedicaram suas vidas a esse Tour. Eu tenho escutado sobre artigos negativos circulando por aqueles que estão desconectados, desinformados e / ou não experimentaram o oceano aqui. Essas pessoas precisam tomar tranquilamente um assento. Eu tenho algumas inchaços e hematomas – uma concussão e visão turva da minha vaca na final – mas isso é da minha conta. Eu não vou apontar o dedo para ninguém.

Grant Twiggy Baker (via Instagram): Ontem foi um dia peculiar na minha vida de surfista, surfar um quebra-coco encavalado de 20 pés onde você tem que pegar duas ondas em uma hora para um evento @wsl foi insano. A onda de Nazaré é um fenômeno, tão desafiador e belo como qualquer grande onda que eu tenha surfado, mas os perigos envolvidos parecem ser maiores que as recompensas. Aqueles 20 minutos durante cada bateria, na parte traseira de um jet-ski, segurando com toda sua força ao saltar sobre espumas de 10 pés, foram algumas das experiências mais aterrorizantes de minha vida e algo não me vejo repetindo? A equipe de segurança d’água fez um trabalho fantástico e agradecimentos especiais a eles. Claro @jamie_mitcho o cachorro mais louco ganhou e espero que todos os caras com lesões se recuperem em breve.

Fonte surfline.com

Galeria de Imagens