Fotógrafo havaiano quase morre em Lagundri Bay

Os participantes do resgate dão o suporte necessário a Keoki Saguibo enquanto o transportam para a praia após uma vaca pesada em Nias. Foto: Haken Visual

Momentos dramáticos em Nias
O fotógrafo havaiano Keoki Saguibo, junto com um dos seus salvadores, o surfista de ondas grandes Trevor Carlson, relembram sua quase morte em Lagundri Bay.

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E foi exatamente isso que aconteceu; mas o sonho virou tragédia quando Saguibo vacou, lesionou suas costas e desmaiou após o impacto. Sobreviver ao incidente foi apenas o primeiro obstáculo superado – para o qual Saguibo teve a sorte de poder contar com a ajuda de um grupo de surfistas que o socorreu imediatamente.

Mas a maior batalha ainda estava por vir, já que Saguibo se encontrava em estado crítico e longe de qualquer unidade capacitada a prestar atendimento adequado. Ele precisava ser evacuado via áerea para um hospital em Singapura. E para tanto, séria necessário arcar com um custo altíssimo, então sua família abriu uma conta no fundo de ajuda coletiva GoFundMe.

Abaixo, os próprios Saguibo e Carlson revelam os detalhes dos momentos dramáticos que enfrentaram durante o acidente, resgate e transporte em busca de socorro médico. O relato pessoal deles foi condensado e editado para maior clareza.Keoki Saguibo:

“Após comentar com outro surfista n’água que ia pegar mais uma onda para sair do mar, esperei por uma série. Não demorou muito e uma onda de três pés (escala havaiana) apareceu no horizonte, encavalando com outra na bancada, e eu sabia que era minha. Peguei aquela onda, fiquei de pé, e me posicionei para um longo canudo. Atrasando com as duas mãos na parede para ficar no tubo o maior tempo possível, acabei ficando fundo demais. Caindo dentro do tubo, achei que ia tomar um caldo que ficasse dentro da expectativa normal. A típica rodada com a onda seguida de uma boa sacudida. E então BAM! Com força total cai de costas na minha prancha e a sensação foi de ter saltado de um prédio de dois andares direto no cimento. A primeira coisa que percebi foi o ar sendo expulso à força dos meus pulmões e uma dor lancinante na região lombar. A dor era tão forte que perdi a visão e meu corpo entrou em choque. Rapidamente perdi a consciência e passei a engolir água. Daquele momento em diante, pelos próximos 20 minutos, iria lutar para permanecer vivo. Mas não me lembro de nada destes vinte minutos.”

“Recuperei a consciência para encontrar uma monte de pessoas ao meu redor com gritos vindos de todas as direções. Tive dificuldade de entender onde estava enquanto olhava para o teto de uma cabana de folhas de palmeira. Agulhadas de dor aguda estavam descendo minhas costas e entrei em choque novamente. A sensação de não poder controlar seus membros, que estavam tremendo como peixe fora d’água, mexeram com minha cabeça e entrei em pânico. Sem saber o que eram minhas lesões, me esforçava para poder entender tudo que estava acontecendo. Não sentia minhas pernas. Meu primeiro pensamento foi, ‘estou paralisado.’ Entrei em choque novamente. Tinha uma voz no crowd me dizendo para respirar. Eu sentia bolhas nos meus pulmões e dar uma respirada funda não era possível. Lutei para permanecer calmo. Depois de alguns minutos, me entendi com minha respiração e tudo que podia fazer eram meias respirações. Então peguei o ar que podia. Me acalmei o suficiente para recuperar minha compostura.”

“Vindo de uma país do primeiro mundo, nós partimos do princípio de que uma ambulância é um abrigo seguro para aqueles que precisam de assistência médica. Na Sumatra, a definição de uma ambulância é um motorista de táxi com luzes descoladas no seu veículo. Sem treinamento, sem experiência, com um tanque de oxigênio mas sem os tubos e máscara para me dar o oxigênio. Como pode ser assim?! Eu sabia que o que estava por vir seria um sofrimento. Senti que a enfermeira dos meus tempos de escola tinha mais experiência e treinamento para qualquer situação médica comparada às de Nias. Para minha sorte, Trevor Carlson estava ao meu lado, e seu treinamento como salva vidas e técnico em emergências médicas por cinco anos, foi o que me salvou pelos próximos três dias. Trevor tomou o controle de todas as situações médicas e ainda disse ao chamados ‘doutores’ o que fazer até que chegasse a equipe da evacuação aérea.”

Trevor Carlson:

“Quando primeiro alcancei Keoki estávamos a uns 70 metros da praia. Ele estava inconsciente, espumando e engasgando com a água. Percebi que todo mundo ajudando estava tão preocupado em leva-lo até a praia rapidamente que ninguém protegeu suas via aéreas. Imediatamente tomei controle de sua cabeça para manter sua coluna e costas alinhadas. Ele estava regurgitando água então virei ele de lado para que pudesse vomitar sem respirar o vômito de volta.”

“Dai em diante toda vez que submergíamos para passar por uma onda eu fechava seu nariz e cobria sua boca para ter certeza que não entrasse mais água nos seus pulmões do que já tinha entrado. Quando chegamos na beirada da bancada de coral, alguém trouxe uma prancha grande o suficiente para que pudesse ser usada para o resgate. Naquele momento tínhamos pelo menos seis pessoas ajudando a carregar ele pela bancada. Mas então ele já estava por pelo menos 10-15 minutos inconsciente.”

“De repente ele abriu os olhos e olhou pra mim e começou a entrar em pânico e em segundos apagou novamente. Um minuto depois ele acordou de novo por alguns segundos e fez isso umas três vezes mais em menos de cinco minutos. Quando conseguimos chegar à praia com ele, o colocamos numa mesa à sombra e lentamente ele recuperou a consciência por conta própria. No começo, Keoki não podia mexer ou sentir suas pernas por uns trinta minutos até que ele recuperou um mínimo de sensação nos seus pés e pôde mexer seus dedos.”

“Demorou mais de uma hora para uma ambulância aparecer e quando ela chegou os motoristas não sabiam nem como utilizar o colar cervical. Eles era literalmente motoristas de táxis dirigindo uma ambulância. Naquele momento percebi que nós tínhamos que tomar o controle dali em diante. Fui técnico em emergências médicas e trabalhei para a cidade de Honolulu como salva vidas por cinco anos, e tive confiança de que poderia tomar melhor cuidado dele do que os motoristas de táxi/ambulância. Por sorte também contamos com o quiropata Luke e um médico brasileiro, o ginecologista Carlos, que nos acompanhou até a clínica mais próxima. A clínica à qual chegamos era basicamente um hotel com camas hospitalares e quase que nenhum equipamento médico ou equipe. Na maioria freiras rezando por ele. Assim que ele ficou o mais confortável possível, tive que voltar ao hotel para empacar nossa bagagem e depois regressar à clínica para ficar com o Keoki.”

“Na manhã seguinte Keoki disse que sentiu bolhas nos seus pulmões durante toda à noite decorrente da água que ele aspirou. Dali eu demandei que fossemos para uma outra clínica mais próxima ao aeroporto para passar a noite e esperar o transporte aéreo especializado para a Malásia e depois dirigir até Singapura na manhã seguinte. Agora estamos em Singapura e, após ter recebido os resultados de sua ressonância magnética, hoje os médicos disseram que com reabilitação extensiva ele eventualmente conseguira um recuperação completa!”

“Desta experiência nós estamos esperando alertar o quão importante é ter preparo básico de primeiros socorros. E também o quanto importante é que tomemos conta uns dos outros, não importando o quão grande ou pequenas estejam as ondas. Sem que todos tivéssemos trabalhado juntos, Keoki talvez não tivesse tanta sorte como ele teve. Eu não tenho nem como começar a explicar o quanto estou agradecido por cada um que ajudou e espero que esta história abra os olhos das pessoas para a importância de cuidar uns dos outros assim como de ter seguro viagem. Só a remoção de emergência aérea custou U$ 27 mil dólares e a conta do hospital já está em U$ 51 mi dólares. Sem mencionar a reabilitação extensiva que ele vai necessitar. O seguro está cobrindo algumas desta despesas mas não todas, espero que quem esteja lendo isso possa aprender algo da nossa experiência e utilizar para se proteger ou talvez salvar a vida de um amigo algum dia.”

Para contribuir como o fundo de ajuda para Keoki Saguibo clique aqui.

Fonte surfline.com