Flávio Boabaid, o homem que criou o Hang Loose Pro Contest em 1986

By João Carvalho

Que o Hang Loose Pro Contest foi um marco na história do surf brasileiro há 30 anos e inovou o formato de campeonatos, todos sabem. Mas muita gente não conhece o homem que idealizou o evento e, de uma certa forma, foi o “pai” ou o “professor” de toda uma geração responsável por construir o que o surf é hoje, como competição e organização. O catarinense Flávio Boabaid hoje já não organiza mais campeonatos, é consultor financeiro e até inventor.

O surf tornou-se só o prazer de pegar ondas, sem stress. Mas três décadas atrás, ele encarou um desafio, o de realizar uma etapa do Circuito Mundial de Surf, trazer de volta ao Brasil os melhores do Mundo e, assim, colocar o surf brasileiro no cenário. Mais do que isso, servir de padrão para os exigentes critérios da ASP (hoje WSL – World Surf League), além de ser o pontapé para fortalecer o trabalho que vingou e teve como principais resultados nada menos que dois títulos mundiais, com Gabriel Medina, em 2014, e Adriano de Souza, em 2015.

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Afastado dos palanques há mais de 20 anos, ele foi convidado a ser o diretor de prova no Hang Loose Pro Contest 30 anos, no mesmo palco, a Praia da Joaquina, em Florianópolis – uma homenagem do atual organizador (e também diretor geral da WSL na América do Sul) Xandi Fontes, por sua iniciativa.

O cargo não é de figuração. Flávio sabe como trabalhar e arregaça as mangas para deixar tudo nos trilhos, mas a tarefa agora é infinitamente mais fácil, mais tranquila. Muito do que ele já “plantou” lá atrás. “A sensação é de prazer, muito orgulho, por ter plantado tantas sementes boas, não só na preparação dos surfistas, mas todos que vivem em volta das competições. Vários deles entraram no Circuito Mundial e estão seguindo até hoje”, diz.

“Foi criado uma nação com DNA diferente, que tem muito orgulho. A gente estabeleceu uma série de inovações em 1986, que a WSL utiliza até hoje. Como a Beach Byte (hoje Ziul Scores, sistema oficial da WSL para a computação das notas dos atletas e também transmissão ao vivo via web) e a sala de imprensa. Hoje é coisa normal, mas 30 anos atrás, não senhor! Ia apanhar para mandar matéria”, recorda.

Foto: Fabio Maradei (FMA)
Foto: Fabio Maradei (FMA)

“Era um grande desafio. Colocamos tradutores, área vip para atletas, outra inovação. Antes ficavam na praia. A gente primou por fazer a coisa bem feito”, segue descrevendo. “Hoje, 30 anos depois, posso dizer: Poxa! Foi muito bacana esse trabalho. Faria tudo de novo…”, comemora Flávio.

Ele confessa que não pensou duas vezes para aceitar o cargo provisório de uma semana de volta à praia. “Sou consultor financeiro, trabalho de terno e gravata, ajudando os outros a economizar. Enfim, um executivo. Quando eu soube que ia ter o Hang Loose e o Xandi me convidou para ser diretor de prova, não pude evitar. Nem pensei em não ser”, comenta.

“Sabia que era uma homenagem muito bacana. É algo que faz parte da minha vida. Um momento marcante da minha vida e tenho certeza, de Florianópolis e até do Brasil. A gente mudou o capítulo. Estou aqui e não sei o que passa lá fora. É muito bacana esse prazer de estar com tantos amigos”, acrescenta Flávio.

Depois de ser um competidor, com conquistas, como o Estadual em 1979, ele decidiu morar nos Estados Unidos. Passou oito meses, aprendeu o idioma e se preparou. “Ao voltar, apareceu a oportunidade de realizar um campeonato. Fizemos o Olympikus em 82, foi um sucesso, repetimos em 83 e 84 e depois veio o Op Pro em 85”, ressalta.

A história do Hang Loose Pro Contest começou quase que por acaso. Boabaid já tinha a expertise na organização de campeonatos de grande porte na mesma Joaquina e a ideia da etapa do Mundial partiu do norte-americano Ian Cairns, então da presidente da ASP, durante o simpósio realizado em Floripa.

Flavio Boabaid com Alt Hunt, tour manager da World Surf League
Flavio Boabaid com Al Hunt, tour manager da World Surf League

“Em 86, quando recebi a equipe americana da NSSA (Nation Scholastic Surfing Association), o time olímpico de surf, decidi fazer um simpósio para atletas, juízes, com o Ian falando da interpretação das regras. Teve uma grande receptividade. Foi uma semana em Florianópolis e uma no Rio de Janeiro. E ele sugeriu a etapa do Circuito Mundial. Achei que era só organizar, crente que ele ia dar o dinheiro”, recorda.

Ian explicou que era preciso pagar a taxa de inscrição do evento e a premiação. “Que era uma baita grana”, destaca Flávio. Nesse momento entrou outro personagem importante, Claudio Martins, o Claudiones, proprietário da extinta Revista Fluir. Foi ele quem trouxe a Hang Loose, na época uma empresa ainda ganhando seu espaço no mercado.

“O Álfio (Lagnado) foi ao Rio nos encontrar, fomos ao Centro com o Ian e ele depositou 5 mil dólares na conta da ASP pela filiação. Ali começava o Hang Loose Pro Contest. E faltava tudo a ser feito”, relembra Flávio, que entre várias histórias cita a invasão ao gabinete do governador Espiridião Amin para garantir o apoio ao evento. Outra passagem marcante é a da chegada dos atletas estrangeiros.

Todos vieram num mesmo voo. Eram 70 surfistas vindo de Los Angeles, que foram recepcionados pessoalmente no Rio por Flávio e Alfio. Na escala feita em Curitiba, Al Hunt, então Tour Manager da ASP avisou que as pranchas estavam sendo retiradas do avião. A Varig queria espaço para embarcar equipamentos da seleção japonesa de futebol.

Os dois anfitriões se movimentaram, falaram até com o comandante da aeronave e as pranchas viajaram até Florianópolis espalhadas nos banheiros, cozinha, corredor. No desembarque, surfistas já com as pranchas nas mãos. “Tivemos de bater o pé, para firmar posição”, fala o consultor financeiro, cheio de momentos para descrever, sobretudo da edição de 1986, como se tivessem acontecido há pouquíssimo tempo.

Com Xandi Fontes, Manager da WSL South America que foi juiz no primeiro Hang Loose Pro Contest em 1986
Com Xandi Fontes, Manager da WSL South America que foi juiz no primeiro Hang Loose Pro Contest em 1986

Depois do histórico campeonato, Boabaid ainda promoveu o Hang Loose enquanto o evento foi em Floripa. Em paralelo foi Tour Manager da ASP na América do Sul e representante da ISA (International Surfing Association) no Brasil. Também repetiu o sucesso do Intercâmbio Brasil-Estados Unidos por mais cinco anos.

“Estávamos em outro momento. Não tínhamos um atleta que batia cabeça com eles, como o Gabriel Medina bate com o John John (Florence) e o Kelly Slater. Eles corriam com cavalo de sangue inglês e nós com pangaré. Eram mais velozes, tinham mais estilo, mais harmonia, mais controle”, argumenta.

Outra conquista de que se orgulha é que ajudou o surf a ser reconhecido como esporte no Brasil, indo ao CND (Conselho Nacional de Desportos) numa reunião com o presidente Manoel Tubino. “Minha meta era ser o melhor. Depois de 1986, o Al Hunt fez um memorando dizendo que todos os eventos deveriam seguir o que foi o Hang Loose e isso se repetiu em 87, virando um padrão. O Hang Loose virou referência”, enaltece.

“Depois daquilo, precisava de novos desafios. Acho que como organizador cheguei no máximo e queria desenvolver coisas novas. Me sinto orgulhoso”, complementa Flávio Boabaid que sempre surfa de pranchinha, principalmente nas praias do Campeche e, claro, Joaquina.

E, disposto a continuar inovando, usou uma das paixões dos surfistas, a defesa do meio ambiente para uma nova empreitada. Uma invenção. Criou o banheiro ecológico. “Que não usa água, não tem esgoto, não tem tratamento químico e não tem cheiro. Estamos colocando este ano aqui no Hang Loose. O surfista sempre tem isso de ajudar a natureza e estou dando minha contribuição”, completa.

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Fabio Maradei – FMA Notícias – contato@fmanoticias.com.br