Cinegrafista brasileiro relata salvamento de surfista australiano

Já fora de perigo no hospital, Nathan com três dos surfistas que atuaram no seu salvamento, da esq. para a dir., os brasileiros Rodrigo Cardoso, Kako Lopes e Renan Farias.

O cinegrafista brasileiro Kako Lopes relata como foi sua participação no resgate do australiano Nathan Bartlett, que perdeu a consciência após se chocar com a bancada

“Não quero título de herói. Topo sim fazer a matéria, mas apenas na intenção de mostrar a importância de os surfistas saberem salvar uns aos outros. Foi uma parada muito grave.” Com estas palavras Kako Lopes iniciou seu relato via internet sobre o incidente no remoto pico de Desert Point, em Lombok, na Indonésia, que por muito pouco não tira a vida do australiano Nathan Bartlett. Se não fosse pela atuação rápida e precisa de Kako em conjunto com Renan Farias, Usman Trioko e Rodrigo Cardoso, certamente ele não estaria hoje na Austrália se recuperando ao lado de sua família.

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Kako Lopes é cinegrafista, grava e dirige alguns programas pro Canal Off. Ele mora entre a Indonésia e o Havaí há mais de 5 anos e passa boa parte do seu tempo dentro do mar, muitas vezes em situação de risco. Em seu post no Facebook sobre o que aconteceu ele fez questão de ressaltar que: “Cursos de apneia e resgate são essenciais pra qualquer surfista. A gente acha que nunca vai acontecer com a gente, mas o surf é um esporte muito perigoso e esse risco está mais próximo do que acreditamos.” Confira a seguir o texto que ele nos enviou dando crédito a quem o preparou para a missão que cumpriu tão bem.

“Já fiz alguns cursos de salvamento e apneia. No Havaí todos anos o surfista Danilo Couto promove um evento com várias palestras e aulas práticas. Também tem o Ricardo Taveira, dono da empresa Hawaii Eco Divers, ele promove cursos de apneia e resgate. Faço todos os anos. Ao longo desses últimos cinco anos convivi muito com Yuri Soledade e Everaldo Pato. Muitas coisas eu aprendi com esses caras. Esses que citei são os responsáveis por Nathan estar vivo hoje, graças a consciência deles em passar os ensinamentos.”
“Cursos de apneia e resgate são essenciais pra qualquer surfista. A gente acha que nunca vai acontecer com a gente, mas o surf é um esporte muito perigoso e esse risco está mais próximo do que acreditamos.”
 Kako Lopes

“O incidente com o Nathan aconteceu no ultimo swell em Desert, dia 16 de junho. Nathan era provavelmente o melhor surfista do swell, já o conhecia de outras temporadas, ele já havia pego muitos tubos no dia anterior, e naquele dia também. Era ao redor das duas da tarde, a maré estava cheia, e acho que isso também vale a pena ser salientado, MARÉ CHEIA NAO SIGNIFICA QUE ESTÁ MAIS SEGURO PRA SURFAR. Com a maré cheia as ondas tem mais dificuldade de quebrar devido a quantidade de água, fazendo com que elas quebrem em cima da bancada.”

“Eu estava entrando pra surfar, logo na entrada vi o Nathan tentando entrar numa onda boa, porém ele estava muito atrasado. O lip o segurou e ele não conseguiu completar o drop. Foi de cara no reef. A onda não era das maiores do dia, eu ainda pensei em surfá-la, mas também fiquei atrasado e não tentei o drop. Na onda de trás veio um amigo surfando e na seguinte o local Usman. Só depois de duas ondas é que eu pude ver que a prancha estava boiando sozinha. Ele já estava distante, vi que o bodyboarder Renan Farias vinha remando forte pra cima da prancha e ai disparei também.”

O brasileiro Renan Farias nada em direção ao oustside de Desert Point resgatando o australiano Nathan Bartlett, que se encontra ferido e inconsciente após se chocar de cabeça com a bancada de coral. Foto: Pepe Romo

“Renan foi o primeiro a chegar, em seguida eu e o Usman. Renan segurou o Nathan, nos começamos a nadar para a areia, porém estava muito difícil devido à corrente. Foi ai que vimos um barco de pesca em que o Pete Friedman estava fotografando. Passamos a remar pro outside. O rosto do Nathan estava desfigurado, ele estava sem pulso, ficando roxo e cheio de água, eu vi que não tinhamos muito tempo. Como Renan nadava por baixo dele eu decidi tentar a primeira massagem e ver se ele sustentaria. Deu certo.”

O trabalho em equipe foi essencial para que Nathan pudesse ser conduzido até o barco do fotógrafo Pete Friedman e dali levado para a praia vizinha e depois ao hospital mais próximo. Foto: Pepe Romo

“Eu comecei a remar com uma mão e massagear com a outra. Muita água saia da boca dele. Era sangue pra todo lado, a cena mais triste da vida. Demoramos uns 5 minutos até chegar ao barco. Não parei a massagem em momento algum, dai chegaram vários surfistas, tivemos dificuldade de colocar ele pra cima do barco, com muito custo conseguimos. Eu subi pra cima do barco e segui a massagem, dai ele deu a primeira respirada, dava pra notar que o espaço no pulmão era pouco, a respiração muito curta, virei ele pro lado direito, parei de massagear e comecei a rezar.”

“Levamos ele pra baia vizinha, onde não quebra ondas, tiramos ele do barco e colocamos em um warung. Naquele momento ele acordou, me reconheceu, segurou forte a minha mão e pediu pra eu não abandonar ele. Em seguida chegou o irmão dele e os amigos. Colocamos ele no carro e partiram pra Mataram (cidadezinha mais próxima de Desert). Lá foi feita a limpeza e os pontos, depois de dois dias conseguiram remover ele pra Bali, onde ele fez uma bateria de exames.”

Segundo Kako Lopes, “Nathan era provavelmente o melhor surfista do swell, ele já havia pego muitos tubos no dia anterior, e naquele dia também”, o que prova que habilidade não é garantia contra acidentes. Nesta imagem, um “frame grab” de uma filmagem feita pelo próprio Kako, em Supersucks alguns anos atrás, o australiano exibe seu domínio das ondas. Frame grab: Kako Lopes

“Graças a Deus, Nathan está se recuperando bem e sem sequelas, os cortes eram profundos e muito próximos do olho, porém não teve problema nenhum no olho, ficou sem danos no cérebro e o pulmão esta melhorando gradativamente. Ele quebrou o nariz, mas ontem lá na Austrália fizeram a última cirurgia no nariz dele. Hoje ele está em casa com sua mulher e seus dois filhos, um de dois meses e outro de dois anos. Amém.”

Kako Lopes, na foto, não quer ser chamado de herói. Prefere que o episódio seja lembrado não por sua atuação, mas sim pelo trabalho em equipe e a importância de estar preparado para saber como agir em momentos de emergência. Foto: Henrique Pinguim

Fonte surfline.com