Carlos Burle dá adeus as competições

Carlos Burle se despede do mundial em 2017

O campeão mundial de 2009, Carlos Burle opta por sair do circuito mundial na crista da onda

Carlos Burle chegou no momento mais delicado da carreira de uma atleta: o anúncio de sua aposentadoria. O campeão mundial de 2009, declarou que irá se aposentar das competições de ondas grandes no final deste ano.

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Burle, que batalhou toda a sua carreira para construir o esporte do qual é protagonista, agora se sente confortável para deixar o circuito mundial. “Esse é o momento mais oportuno para isso. Nunca me senti confortável antes porque sempre tinha algumas demandas a serem entregues”.

Com um circuito mundial de ondas grandes bem estruturado, Burle opta por deixar às competições na crista da onda. “Já participo do circuito faz alguns anos, fui o primeiro a ganhar o título da competição. Acho que não vou poder ficar competindo com os melhores do mundo para o resto da minha vida. Prefiro saber o momento de estar dizendo adeus do que ser obrigado a sair da disputa.”

Entre um voo e outro, conseguimos bater um papo com Burle e ele deu uma depoimento muito sincero deste momento que está vivendo. Veja a entrevista completa a seguir:

Oi Burle, será rapidinho antes de você embarcar. Conte-nos sobre essa história de se aposentar. É isso mesmo?

Bom, esse é o momento mais oportuno para isso. Nunca me senti confortável antes porque sempre tinha algumas demandas a serem entregues. E algumas instabilidades relacionadas a estrutura profissional do esporte. O surf de ondas grandes nunca esteve tão bem quanto hoje. Tem também a questão da a idade e do lado físico também tem falo alto. É um conjunto de coisas importantes, que agora estou fazendo uma releitura clara, para entender que esse momento é o certo para eu me aposentar.

Carlos Burle surfando Nazaré
Carlos Burle surfando Nazaré© Hugo Silva

Mas o que significa essa aposentadoria? É aposentadoria total ou é aposentadoria do mundial?

É apenas do mundial. Eu estou me aposentando há muito tempo. Preferi uma transição moderada do que radical, por que ela pode ser traumatizante, né?! E com o circuito mundial de ondas grandes sólido, e a evolução do evento, a entrada dos patrocinadores, a comunicação fluindo de um jeito muito rápido, é um momento que está me dando conforto para fazer isso [me aposentar]. Já participo do circuito faz alguns anos, fui o primeiro a ganhar o título da competição. Acho que não vou poder ficar competindo com os melhores do mundo para o resto da minha vida. Prefiro saber o momento de estar dizendo adeus do que ser obrigado a sair da disputa.

Fisicamente para mim, é muito diferente do que era antes. Vejo a nova geração hoje passando por mim com uma velocidade muito mais rápida, uma remada muito mais em dia. É um esporte que se machuca bastante, então para mim está demorando para curar as lesões. É um conjunto de coisa. Viagens de última hora, aeroportos. Quando você é jovem, não sente tanto.

Então, entrei em contato com a Entidade e falei que há anos venho trabalhando, mas que gostaria de me aposentar. Pedi ajuda para eles. E eles falaram que tudo bem, que eu merecia. Afinal, eu tinha sido o primeiro campeão do circuito. Eles vão me dar um apoio. Se for necessário, psicológico, financeiro. Tenho procurado meus patrocinadores também e tem sido bem legal. Estou feliz com esse momento, que não é fácil. Tenho procurado me informar sobre atletas que param e muitos têm problemas psicológicos. E eu não quero ter.

Então você já está se prevenindo de uma certa forma?

Claro! Imagina que eu resolvo não me aposentar. Então no circuito vou me classificando. E sei que é muito difícil conquistar um título. Aí termino saindo do evento numa situação desagradável. Não preciso disso. A gente sabe que o surf de ondas grandes é um esporte de risco de vida. Prefiro sair num momento que estou bem, que as pessoas vão olhar e pensar: “poxa, que carreira legal esse cara teve. Conquistou dois títulos mundiais, fez vários projetos incríveis e hoje ele se aposenta bem.” Não estarei sendo expulso do circuito, entendeu?! (risos). Estarei deixando uma imagem, um legado positivo.

Carlos Burle continuará pegando ondas grandes
Carlos Burle continuará pegando ondas grandes© Hugo Silva

Você acha que o seu corpo deu alguns sinais?

O surf de ondas grandes não é um esporte motor, onde eu posso ter uma preparação excelente e mandar bem. Com o passar do tempo, você vai perdendo o reflexo, a reação. Fisicamente você não vai reagir igual um jovem de vinte anos. O físico é muito importante. O que estou fazendo hoje em dia é uma preparação para conseguir me manter em forma. Mas nunca vou surfar igual quando tinha trinte anos. Eu estava com o Sandro Dias conversando sobre esse assunto de aposentadoria e ele dizia: “pô, acho que ainda não é o momento. O skate vem fazendo campeonatos com categoria Master, para manter o pessoal competindo.” Mas você já imaginou os veteranos correndo em Jaws? Em Mavericks? (risos). Vai colocar uma pessoa de 60 anos para disputar uma bateria e vai matar a galera. É complicado.

Mas o Clyde Aikau mostrou que dá para puxar o limite…

Dá, com certeza! A atuação dele foi linda. Mas você vai para Jaws e fica difícil, né?! Alí no Waimea tem uma baia, a segurança consegue chegar mais fácil. Não é uma onda tão arriscada. Sou super fã do Clyde, o que ele fez em Waimea foi demais. Ele com 66 anos, todas a onda que surfasse tinha que ser nota 10. Acho até falta de respeito você ficar dando nota para um cara com essa idade, achando que ele tem que ser julgado com o mesmo critério que a molecada. Por favor, né gente?!

Carlos Burle surfando Teahupoo
Carlos Burle surfando Teahupoo© Brian Bielmann/Red Bull Content Pool

E você tem algum projeto de trabalhar dentro da organização?

Olha, não tenho. Não há nada concreto. Talvez alguma coisa pontual, comentando algum evento, participando na segurança dentro d’água. Eu prefiro trabalhar com os atletas. Com a nova geração. Prefiro fazer discursos sobre o profissionalismo no esporte. Mas, o que quero que as pessoas entendam é que vou me aposentar realizado!

No futuro, você acha que o circuito vai ter alguma maneira de classificação? Algum circuito classificatório?

Vai ter! A gente já está trabalhando nisso. Talvez nesse ano mesmo já aconteça. Está para sair o “qualifying” das ondas grandes.

Porque ai vira mesmo a questão dos melhores, né?!

Exatamente! Era só Eddie Aikau quando eu comecei a surfar e ninguém tinha condições de correr o campeonato. Depois foi criado um evento com países que tinham influencia no surf de ondas grandes podiam mandar suas equipes. Ai o Brasil foi lá e foi campeão. Depois de anos veio o circuito mundial. O sistema de classificação não existia. Agora chegou a hora! Se continuar essa coisa de mais de 50% dos atletas serem convidado vai ser muita burocracia. Não dá para ser assim. Todo mundo que está envolvido na organização e na direção do tour sabe que tem que acabar com isso. É igual ficar julgando o tamanho de onda. Só seis pessoas lá da Califórnia que ficam julgando. Isso é ridículo.

Foto de capa Carlos Burle/ Red Bull Divulgação

Fonte redbull.com