A briga continua…

João Ricardo Ferreira relata ter sido agredido por pescadores no último feriado. Foto: Arquivo pessoal.

Bombeiro militar desabafa sobre agressão sofrida na praia da Ferrugem, em Garopaba, no último feriado.

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Nesta quinta-feira, recebemos um desabafo de João Ricardo Ferreira, bombeiro militar do Paraná e frequentador da praia da Ferrugem, em Garopaba (SC), onde também costuma surfar.

Segundo João, ele e a sua família foram agredidos por um grupo de pescadores na Ferrugem, no último feriado de Corpus Christi, depois que tentou defender um surfista com cerca de 50 anos que saia da água próximo à bandeira que delimita o espaço para a prática do esporte.

Veja a íntegra do texto enviado à redação do Waves.

“Primeiramente gostaria, pela educação que recebi em minha família, de me apresentar.
Me chamo João Ricardo Ferreira, sou um cidadão brasileiro, assim como você que lê essas palavras, tenho 40 anos de idade, resido em Curitiba, sou Bombeiro Militar do Paraná desde 2006 e Guarda Vidas formado em 2007, tenho curso superior em Desenho Industrial e Comércio Exterior, e surfo desde a década de 90. Frequento a praia da Ferrugem e a cidade de Garopaba com meus familiares há mais de cinco anos.

Através desse comunicado, venho relatar fatos e não contar histórias. Por mais impressionante que possa parecer, tudo realmente aconteceu e pode acontecer novamente com outras famílias caso as autoridades competentes não tomem as medidas legais previstas em lei.

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João prestou queixa por crime de lesão corporal. Foto: Arquivo pessoal.

Então esse é o relato do fato ocorrido no sábado dia 17/06/2017, feriado de Corpus Christi, na praia da Ferrugem, Garopaba (SC), em torno do meio-dia, muito sol, dia lindo, praia cheia, famílias e crianças por todos os lados. Eu já havia surfado pela manhã e estava na praia juntamente com a minha esposa, filho de 6 anos e sobrinha de 14 anos.

Chegou um grupo de pescadores e parou muito próximo de onde estávamos, e como todos já estão habituados a presenciar, eles começaram a xingar, intimidar e insultar todos os surfistas que saiam da água por conta da bandeira que limita o espaço para a prática do esporte.

O que aconteceu em seguida foi muito constrangedor para todos que acompanhavam e acredito que mais para quem sofreu agressões, pois o Sr. Lucio Botelho, conhecido morador e que se diz pescador, começou a agredir fisicamente – com um material de cor alaranjada – um garoto que saiu da água com sua prancha. O mesmo não reagia, e por um trecho de uns 20 metros, foi levando empurrões e muitas bordoadas no rosto e na cabeça enquanto tentava sair da situação abaixo de insulto e humilhação.

Muita gente viu, ficou desconfortável, mas não fez nada, então minha esposa ligou para a Polícia Militar pelo 190 e informou a situação de agressão aos turistas por parte dos pescadores.

Passados nem 10 minutos, no próximo surfista que saiu da água, já um senhor aparentando uns 50 anos, começou novamente a série de humilhação, insultos e agressões, e muitas bordoadas no rosto e cabeça por parte do Sr. Lucio Botelho ao surfista desconhecido. Ao ver novamente isso acontecendo bem na minha frente, me levantei e fui em direção a eles e gritei “Ei, não precisa bater nas pessoas, você vai perder a razão desse jeito, resolve na PAZ”.

No mesmo momento, o pescador Lúcio Botelho veio em minha direção me xingando e me deu um empurrão muito forte, e em seguida, continuando na minha direção, em tom ameaçador, chutou areia no meu rosto e veio para cima de mim novamente. Nesse momento, reagi empurrando-o de volta, e nessa altura, minha família já estava cercada por todos eles.

Então esse Lucio Botelho foi para cima da minha esposa, que estava indignada e tentando defender a família que estava ali numa situação de ameaça à vida, e a empurrou fortemente e ameaçou agredi-la. Em meio aos pescadores, gritei para ele: ‘Você gosta de bater em mulher, né? Por que não tenta bater em mim?’.

Nesse instante, apareceu pela minha lateral, por de trás de outros pescadores, um outro pescador que muito possivelmente seja familiar do Sr. Lucio Botelho, porém ainda não consegui apurar o seu nome com certeza, e me desferiu um golpe com um pedaço de pau. O primeiro pegou no braço, o segundo na face, do lado direito, ao lado do olho. Imediatamente identifiquei o agressor, que já tentava fugir, o segurei e o imobilizei, jogando o mesmo na areia e segurando pelo pescoço. Ao fazer isso, os seus comparsas começaram a me bater nas costas e pelo corpo, gritando ‘Solta ele, solta ele, ele vai morrer, vai morrer, tem problema’. Então o soltei, ele fugiu imediatamente e não o vi mais.

 

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Segundo João, os pescadores locais têm agido de forma truculenta. Foto: Arquivo pessoal.


Os outros continuaram em volta ameaçando, mas já havia outras pessoas que correram até o local para ajudar, então os pescadores começaram a sair em direção ao rancho proferindo diversas ofensas a mim e a todos que estavam junto. Nesse momento, estava em contato pelo celular com o 190 informando o fato e me identifiquei para o grupo de pescadores como sendo Bombeiro Militar do Estado do Paraná, e que eles seriam todos denunciados pelo crime que haviam acabado de cometer contra mim e minha família.

Após uma longa espera tremendamente humilhante, já estava juntando as coisas para ir embora, quando chegou a viatura da Polícia Militar, então fui até a equipe e relatei os fatos, expliquei para aos praças tudo o que aconteceu.

E orientei que o grupo estava reunido próximo ao local no rancho de pesca, porém infelizmente fui informado que não poderia ser feita a prisão em flagrante dos agressores, que estavam em um número considerável, e a guarnição da PM poderia causar um transtorno maior. Fui orientado a procurar a Delegacia de Polícia Civil e prestar queixa por CRIME DE LESÃO CORPORAL. Foi o que fiz, no sábado mesmo, e após fiz exame no IML de Laguna, agora aguardo a investigação por parte da Polícia Civil de Garopaba.

No sábado à tarde, não apareceu mais nenhum único pescador para reclamar na bandeira, todos surfaram e as famílias aproveitaram a praia em PAZ até o fim de tarde.

Não houve nenhuma briga a mais, nenhuma outra discussão, muito menos nenhum grupo de surfistas contra pescadores, isso é fofoca e mentira tentando amenizar o estrago feito por aqueles que deveriam ser o exemplo da comunidade. O único surfista que se envolveu nesse dia em luta corporal contra pescadores fui eu, mais ninguém.

Se estão contando outras coisas por aí, isso é história de pescador.

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Mais uma cena do episódio lamentável. Foto: Arquivo pessoal.

No domingo, apareceu um truculento ao lado da bandeira, ficou lá disparando suas ameaças como um louco xingando todos e logo foi embora, depois apareceu um tal de Neneco apitando e xingando. Nesse momento eu estava na água surfando. No instante em que ele reconheceu minha esposa na areia, foi embora imediatamente, pois foi um dos que participou das agressões também.

Existem duas bandeiras vermelhas na areia que delimitam uma área para a prática do surf durante o período de pesca da tainha. Grande detalhe é que não existe nenhum tipo de orientação sobre as regras da praia, muito menos pessoas representantes da comunidade de pesca orientando e explicando como tudo isso funciona. Para a maioria das pessoas, bandeira vermelha na praia é sinal de mar perigoso.

Os ditos pescadores artesanais do local apenas chegam na beira do mar com uma tremenda falta de respeito, uma ignorância sem tamanho, um desrespeito total a todos, e vão de maneira extremamente truculenta xingando e intimidando e ameaçando todos os que saem da água. Na maioria das vezes, são turistas que desconhecem essa regra e são pegos de surpresa.

Resumindo, fui agredido por tentar auxiliar ambas as partes envolvidas. Podia ter perdido a visão em um dos olhos, estou cheio de lesões pelo corpo, minha esposa foi agredida e exposta, minha sobrinha menor foi agredida levou uma paulada na perna que ficou marcada por dias, e meu filho pequeno de 6 anos até agora não esquece da confusão e estou tentando explicar para ele da maneira mais pacífica possível tudo que houve.

Perdi dias de trabalho, tive que alterar minhas obrigações de instrução dentro do quartel, por onde vou com com o rosto todo marcado e tenho que ficar dando explicações, deixei de fazer algumas atividades durante alguns dias. É extremamente desagradável chegar no meu local de trabalho com o rosto todo marcado e ficar explicando o que aconteceu, mas graças ao Criador esse foi mais um grande aprendizado.

Estou à disposição a qualquer entidade representativa para prestar qualquer esclarecimento, principalmente para as que estão ligadas ao surf e ao desenvolvimento da região.

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João busca informações sobre os agressores. Foto: Arquivo pessoal.

Sou surfista desde os meus 14 anos de idade, conheço muito bem as regras da Ferrugem, frequento e preservo essa praia há mais de cinco anos consecutivos, conheço muito bem e respeito as regras das bandeiras e respeito os locais.

Não vou deixar de frequentar a praia, não vou deixar de preservar o local, não vou deixar de surfar em frente minha casa, não vou deixar de levar minha família à praia, não vou me intimidar por nada. Não podemos ficar reféns da ignorância.

O mal só existe quando temos a oportunidade e deixamos de fazer o BEM.

Se alguém tiver informações sobre os agressores e deseja ajudar a identificá-los, por favor pode entrar em contato comigo pelo meu email joaoricardoferreira57@gmail.com, ou pode entrar em contato direto com a Delegacia de Polícia Civil de Garopaba. Tenho as fotos bem detalhadas da agressão.

AGRADEÇO MUITO aos que foram ao nosso socorro no momento. Vocês fazem a diferença para um mundo melhor para todos. Grande abraço e boa praia e boas ondas a todos.”

Fonte waves.com.br