O Prazer da Descoberta

Peter Troy. Foto Huck

Ter a chance de traduzir matérias para a edição brasileira de uma publicação do calibre da The Surfer`s Journal representa uma oportunidade enriquecedora de adquirir conhecimento relevante, em verdadeiras aulas sobre a história do surf

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Para esta segunda edição da revista no Brasil, tive o privilégio de poder mergulhar na história primeira prancha de tow-in, shapeada por Dick Brewer para Laird Hamilton. Também pude fuçar “Os Diários Perdidos de Peter Troy“, que reúne alguns dos relatos mais significativos sobre viagens de surf jamais produzidos, cortesia deste australiano que representou o protótipo do surfista desbravador.

Já conhecia a fama do personagem de outras leituras, principalmente pela marca por ele deixada em sua passagem pelo Brasil no ano de 1964, quando entrou para a história como o responsável pelo surgimento do surf moderno por aqui, ao mostrar à turma do Arpoador que era possível manobrar uma prancha, andando até o bico e fazendo cutbacks – a bibliografia oficial afirma, sem medo de errar, que a história do surf no Brasil pode ser dividida entre “antes e depois de Peter Troy”.

Mas se Peter Troy mudou radicalmente os caminhos do surf no Brasil, a leitura dos trechos selecionados pela TSJ a partir dos diários originais – que foram publicados na íntegra no livro “To The Four Corners of The World” (Até Os Quatro Cantos do Mundo), ainda inédito em português -, oferece uma visão ainda mais ampla do espírito desbravador de Troy em sua peregrinação por mais de 130 países, sendo responsável pela descoberta de muitos picos de surf em volta do mundo.

França, Namíbia, Peru, Nias, Caribe… a lista é extensa e a cada parada de Troy por alguns recantos onde o surf sequer existia, seus relatos e impressões nos fazem viajar no embalo do prazer proporcinado pela boa leitura. Uma literatura que evoca imagens de um tempo distante, onde a figura do surfista nômade era inexistente e as diferenças culturais se revelavam de forma muito mais intensa – e a descoberta de ondas virgens era coisa corriquerira.

No textos dos diários notam-se o prazer de cada descoberta que motivava o espírito de Troy a sempre seguir em frente em busca de um novo destino. Em cada passagem narrada podemos ter um vislumbre do impacto que o surf iria gerar em lugares tão distantes entre si, que carregam em comum o fato de ser abençoados por boas ondas.

Interessante notar que o mesmo Troy mudaria a vida de tantas pessoas apresentando-lhes o surf, teve ele próprio o seu momento de despertar ligado ao surf: em 1956, quando em um campeonato em sua terra natal, Greg Noll e sua turma da Califórnia apresentaram aos incrédulos ausralianos as pranchas “malibu” que viriam a revolucionar o surf na terra dos cangurus. Foi a partir desta descoberta que Troy decidiu ampliar o seus horizontes num caminho de exploração sem volta, tendo o surf como o seu norte para rabiscar o mapa mundi com suas extensas rotas de viagem nos anos 60.

O resultado está gravado em feitos verdadeiramente épicos… “Tudo isso literalmente uma geração antes do surgimento de surf camps, trips de barco e tudo o mais que possamos associar a uma surf trip nos dias de hoje”, lembrou bem a revista Surfer em seu perfil sobre Troy, que morreu em 2008 aos 69 anos.

O seu importante legado se traduz nas muitas manifestações de carinho da comunidade de surfistas espalhados pelos quatro cantos do mundo na ocasião de seu falecimento, ressaltando a marca positiva deixada por Troy por onde passou. E no fim das contas, o que mais pode querer realizar um homem durante a sua vida do que influenciar positivamente o maior número possível de pessoas?

Em seu blog Lendas do Surf, o shaper Marcelo Kaneca dedica uma página a Peter Troy lembrando que  “ele foi o responsável pelo sepultamento da era das madeirites no Brasil e pela entrada do surf brasileiro na era das pranchas de fibra e das manobras”. Nos seis meses que passou no Rio, Troy tornou-se celebridade pelo nível de suas performances nas ondas e contribuiu decisivamente para a modernização das pranchas, inclusive trazendo os primeiros outlines para os aspirantes a shapers locais.

O depoimento do pioneiro surfista e shaper carioca Mário Bração resume bem o impacto desta transformação estabelecida com a chegada de Troy ao Arpoador: “A gente pegava onda de madeirite e nunca tínhamos visto ninguém andar em cima da prancha. Uma vez de pé na prancha nenhum de nós fazia nada além de ir reto no corte. O Peter foi o primeiro surfista que eu vi andando sobre a prancha, indo até o bico e arriscando um hang five.”

As impressões de Troy sobre o Brasil por sí só já valem a leitura da matéria da TSJ Brasil, mas para os adeptos do prazer da descoberta, posso assegurar que a recompensa é ainda maior a quem investir na leitura completa de suas andanças pelo mundo.

Fonte surfecult.com

fotos: Huck Magazine, Switch Foot, arquivo Peter Troy e divulgação TSJ Brasil