Vinícius Tinoco e o sonho de morar na Califórnia

Brasileiro cria fundação para ensinar skate a crianças da periferia da Califórnia

Vinícius Tinoco se inspirou em projeto social paulista que dava aulas do esporte para menores infratores. Há oito anos, instituição funciona apenas com doações.

Era 2005, em Ribeirão Preto. Vinícius Tinoco, ainda um garoto de 22 anos, cultivava o sonho de morar na Califórnia, a Meca do Skate. Sem grana, parecia impossível o sonho. Foi quando ficou sabendo que um amigo embarcara para morar em Milão: “O Pedro, sem um tostão tá indo para Milão? Mãe, ‘tô’ indo para a Califórnia! ”. Poucos meses depois, Vinícius aterrissava no lugar dos sonhos.

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– Eu vim em janeiro de 2006 para andar de skate, ter uma experiência de vida, diferente do que eu estava levando em Ribeirão Preto. A cidade estava muito pequena pra mim e eu queria ter novas experiências, e conhecer o lugar onde o skate começou. Vir para cá era um sonho meu desde os 15 anos de idade. Sempre vendo, assistindo vídeo de skate daqui, e via o pessoal andando dentro das escolas e sempre tive vontade de vir aqui e ver como funcionava – relembra.

Antes de zarpar para a Califórnia, em São Paulo, Vinícius ajudava o amigo skatista Sandro Soares a dar aulas do esporte em um projeto social chamado “Skate na Febem”. A ideia era que a molecada pudesse aprender com os erros deles e não voltassem mais para aquele lugar, uma vez que ganhassem liberdade. Na mala de Vinícius veio a ideia de começar algo parecido nos Estados Unidos.

– A gente tentava levar algo positivo pra dentro de um lugar que só tinha tristeza e coisas negativas. Através do skate, a gente tentava ensinar que eles tinham levado um tombo muito grande na vida deles, porém eles poderiam levantar e aprender com aquele tombo. É exatamente o que acontece com o skate: todos os dias a gente cai, então cair e levantar é algo que a gente sabe fazer muito bem. Essa lição, a gente pode usar na vida: os tombos são os erros que cometemos e com os erros a gente tenta aprender e não cometer os mesmos erros de novo.

Só que trabalhar com menores infratores em terras ainda desconhecidas deixavam o brasileiro pouco à vontade. Inserido em uma cultura completamente diferente da sua, Vinícius tinha receio de entrar em presídios sem saber exatamente por quais motivos as crianças estavam lá. Sem falar qualquer palavra de inglês, ficaria ainda mais difícil dialogar e tentar passar a mensagem positiva.

– Eu vim para cá sem falar nada, tive que aprender tudo do zero. Foi uma aventura – relembra.

Aventura divertida, é claro. A tática para aprender rapidamente era ir para os bares e assumir para as garotas que não sabia falar uma palavra do idioma delas, mas, mesmo assim, estava interessado em conhece-las melhor. Além de aulas gratuitas, com essa tática, Vinícius garantiu inúmeros encontros e algumas namoradas.

– Isso dá certo até hoje – se diverte.

Foram necessários três anos até que o brasileiro ficasse afiado no idioma e conhecesse melhor a comunidade local. Já era hora de arregaçar as mangas para tirar do papel o projeto de ensinar o skate em um lugar que precisava manter as crianças afastadas do crime. Em 2010, surgiu em Anaheim, a Next up Foundation, organização sem fins lucrativos que dá aulas de skate para as crianças.

– Nós brasileiros achamos que não tem pobreza nos EUA, não tem necessidade, não tem falta de educação… tem! Aqui os problemas são tão ruins quanto os do Brasil, talvez em diferentes níveis porque os EUA são um país desenvolvido. Aqui existem muitos problemas com drogas. As crianças que frequentam a Next up estão expostas a todo tipo de droga que você possa imaginar. Os bairros que são menos privilegiados, não têm escolas públicas boas – explica Vinícius.

Enquanto conhecia a história de Vinícius para o California Onboard, Maya teve aulas de skate (Foto: Iris Correia)
Enquanto conhecia a história de Vinícius para o California Onboard, Maya teve aulas de skate (Foto: Iris Correia)

Aventura divertida, é claro. A tática para aprender rapidamente era ir para os bares e assumir para as garotas que não sabia falar uma palavra do idioma delas, mas, mesmo assim, estava interessado em conhece-las melhor. Além de aulas gratuitas, com essa tática, Vinícius garantiu inúmeros encontros e algumas namoradas.

– Isso dá certo até hoje – se diverte.

Foram necessários três anos até que o brasileiro ficasse afiado no idioma e conhecesse melhor a comunidade local. Já era hora de arregaçar as mangas para tirar do papel o projeto de ensinar o skate em um lugar que precisava manter as crianças afastadas do crime. Em 2010, surgiu em Anaheim, a Next up Foundation, organização sem fins lucrativos que dá aulas de skate para as crianças.

– Nós brasileiros achamos que não tem pobreza nos EUA, não tem necessidade, não tem falta de educação… tem! Aqui os problemas são tão ruins quanto os do Brasil, talvez em diferentes níveis porque os EUA são um país desenvolvido. Aqui existem muitos problemas com drogas. As crianças que frequentam a Next up estão expostas a todo tipo de droga que você possa imaginar. Os bairros que são menos privilegiados, não têm escolas públicas boas – explica Vinícius.

A quadra pública pode ser usada por qualquer um dos meninos da região (Foto: Iris Correia)
A quadra pública pode ser usada por qualquer um dos meninos da região (Foto: Iris Correia)

A quadra da fundação é pública. Há poucos meses, eles conseguiram um prédio da prefeitura em frente à pista de skate para tentar arrebanhar ainda mais crianças para o movimento. Qualquer um que quiser pode chegar e usar o espaço. As condições são simples: ter aulas de inglês, matemática e computação duas vezes por semana com os monitores da Next Up Foundation.

Os ensinamentos vão além de se manter equilibrado em cima das quatro rodinhas. O objetivo do Next Up Foundation é “demonstrar através do skate que, como na vida, estabelecer metas específicas e atingíveis, com determinação e otimismo, nos permite construir confiança, superar obstáculos e superar nossas próprias expectativas”.

– Todas as crianças aqui são skatistas, eles adoram o skate e a gente usa o gancho do skate para chamar atenção deles e educá-los. A nossa missão é através da educação, arte e skate poder tentar quebrar o ciclo de analfabetismo não só de ler e escrever, mas que eles possam ir para o segundo grau, ingressem na faculdade, tentarem ir o mais distante que eles puderem. Atingir o melhor deles! Quebrar também o ciclo com drogas e gangues, porque em Anaheim é forte – completa.

No dia em que o California Onboard conheceu a fundação, os alunos do projeto estavam reunidos em uma sala de olhos e ouvidos arregalados para ouvir o skatista profissional Felipe Gustavo, um dos principais nomes do street skate amador no mundo. As crianças puderam sabatinaram o brasileiro que desde os 11 anos já chamava atenção nos campeonatos de Brasília, sua cidade natal. Depois de quase 40 minutos de perguntas, os pequenos puderam andar de skate junto com o ídolo. Vinícius Tinoco era só sorrisos.

– A gente sempre traz algum skatista de nome para conversar com eles. A gente tenta atrair as crianças de alguma forma, principalmente durante as férias de verão. Está quente lá fora. Eles querem andar de skate, não querem ter aulas de matemática. Então, a chance de se envolverem com o que é errado é maior. Esse tem sido meu grande desafio, manter elas aqui durante as férias. Aqui é um lugar seguro para as crianças. É uma organização pequena, apesar de fazermos muitas coisas interessantes, bem expressivas na indústria do skate – finaliza.

Felipe Gustavo é sabatinado pelas crianças do projeto (Foto: Iris Correia)
Felipe Gustavo é sabatinado pelas crianças do projeto (Foto: Iris Correia)

Fonte globoesporte.globo.com