'O Missionário'
Por Léo Maroja
 

  A Pororoca do Araguari no Amapá é um verdadeiro tsunâmi amazônico e acontece diariamente. Foto: Denis Sarmanho Craud Photos
   
 

Descricão histórica da pororoca pelo Paraense Herculano Marcos Inglês de Souza, em “O Missionário”, que no prefácio descreve o que segue:

" em uma volta estacou a embarcação. Existia uma abertura no mato, alguma coisa que se assemelhava a um ponto de passagem de antas. A influência das águas dificilmente chegaria até ali, asseguraram-lhe, todavia, a igaraté foi encalhada e amarrada aos troncos marginais.

"Para mim, as recordações do que se seguiu são vagas, e neste instante apresentam-se-me ao espírito adornadas dos tons fugitivos e fulgurantes de uma mágica teatral."

"Um dos índios tinha-me tomado ao ombro e depois me colocara em terra. Ao clarão da almacega fomos conduzidos todos para a região mais elevada. Passaram-se minutos. Um clamor ao longe, se fez sentir no espaço, seguido de silêncio. Novo clamor e seguiram-se fragmentos de rumores desconhecidos espalharam-se dilacerados pelo vento da floresta. Os ouvidos dificilmente aprendem a sinfonia de ruídos misteriosos, que se avizinha. Era a "pororoca", que se aproximava. Um rugido indescritível atroou nos ares, propagando-se em mil sons que se perdiam pelas arcaicas da selva sem limites e num crescimento diabólico, ao qual pareciam assistir todas as bigornas do inferno invisível, a onda alva e espumante, de longe mal pressentida, aturdia-me até à paralisação do sentido auditivo. E, assim, passou por junto de nós, o pesadelo da natureza amazônica."

Ingles de  Souza publicou dois romances em 1876, O Cacaulista e História de um Pescador, aos quais seguiram-se mais dois, todos publicados sob o pseudônimo Luís Dolzani. Com Antônio Carlos Ribeiro de Andrade e Silva publicou a partir de 1877 a Revista Nacional, versando sobre ciências, artes e letras.

Foi o introdutor do naturalismo no Brasil. A principal características de sua obra é o enfoque no homem amazônico, integrado a paisagem e no exotismo da região.

Compareceu às sessões preparatórias da criação da Academia Brasileira de Letras (ABL), responsável pela fundação da cadeira 28, que tem como patrono Manuel Antônio de Almeida.

Do grupo fundador da ABL participou outro ilustre obidense e paraense, José Veríssimo, que, juntamente com Araripe Júnior, Artur de Azevedo, Graça Aranha, Guimarães Passos, Joaquim Nabuco, Lúcio de Mendonça, Machado de Assis, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Pedro Rabelo, Rodrigo Otávio, Silva Ramos, Visconde de Taunay e Teixeira de Melo, realizaram a sétima e última sessão preparatória em 28 de janeiro de 1897.

Nesta sessão foram incorporados como membros aqueles que haviam comparecido às sessões preparatórias anteriores: Coelho Neto, Filinto de Almeida, José do Patrocínio, Luís Murat e Valentim Magalhães. Foram convidados para participar como fundadores, e aceitaram, Afonso Celso Júnior, Alberto de Oliveira, Alcindo Guanabara, Carlos de Laet, Garcia Redondo, Pereira da Silva, Rui Barbosa, Sílvio Romero e Urbano Duarte.

Tornou-se conhecido com O Missionário (1891), que, como toda sua obra, revela influência de Zola. Neste romance descreve com fidelidade a vida numa pequena cidade do Pará, revelando agudo espírito de observação, amor à natureza, fidelidade a cenas regionais.

 Carreira política e jurídica

Inglês de Sousa fez os primeiros estudos no Pará, no Maranhão e no Rio de Janeiro.

Em 1870 foi para a cidade de Recife para preparar o concurso para a entrada na Faculdade de Direito do Recife, que cursou de 1872 a 1875.

Em 1875, com a nomeação de seu pai como juiz de direito em Santos, foi buscar as irmãs que estavam no Pará e partiu em 1876 para São Paulo para completar o curso de direito, inscrevendo-se para o quinto (e último ano) na Faculdade de Direito de São Paulo, onde formou-se em 4 de novembro de 1876.

Em 1878, quando ainda morava na cidade de Santos, onde era jornalista no Diário de Santos, de propriedade de João José Teixeira, militava ativamente no então Partido Liberal, em oposição ao Partido Conservador. Em 5 de janeiro de 1878 subiu ao poder o Partido Liberal, sob a presidência do Conselheiro João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu e com ele Carlos Leôncio da Silva Carvalho para a pasta do Império, que nomeou Inglês de Sousa Secretário da Relação de São Paulo, em 18 de maio de 1878.

Foi eleito deputado provincial (equivalente aos atuais deputados estaduais) para a Assembleia Provincial de São Paulo (hoje Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) nas 23ª e 24ª legislaturas (1880 a 1883).

Foi nomeado presidente da província de Sergipe (hoje Estado) por carta imperial de 2 de maio de 1881 e tomou posse em 17 de maio de 1881. Sua missão consistia em controlar uma rebelião da guarnição militar local e supervisionar a aplicação da recém promulgada Lei Saraiva em Sergipe. Após controlar a situação e supervisionar as eleições de 1881, pediu exoneração do cargo que foi concedida por decreto de 28 de janeiro de 1882, governando até 22 de fevereiro de 1882.

Após sua exoneração de Sergipe foi nomeado presidente da província do Espírito Santo por carta imperial de 11 de fevereiro de 1882 e tomou posse em 3 de abril de 1882.

Pediu exoneração do posto e deixou o cargo em 9 de dezembro de 1882 para tomar posse como deputado provincial da 24ª legislatura (1882 a 1883) da Assembleia Provincial de São Paulo.

A partir de 1892 fixou-se no Rio de Janeiro , como advogado, banqueiro, jornalista e professor de Direito Comercial e Marítimo na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da UFRJ.

A publicação de Os Títulos ao Portador assegura-lhe projeção nacional e o torna jurisconsulto de fama e prestígio, sendo indicado para diretor da Faculdades de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro e Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) de 1907 a 1910, qualidade na qual presidiu o Primeiro Congresso Jurídico Nacional.

Convidado, mais de uma vez, para o Supremo Tribunal, não aceitou a indicação, "por motivos de ordem pessoal". Foi convidado pelo ministro Rivadávia Correia para organizar o novo Código Comercial, apresenta-o, dentro de 11 meses, com notáveis emendas aditivas, que o transformam em Código uno de direito privado, de que era convicto partidário. Realizou a primeira codificação integral de todo o direito privado nacional.

Inglês de Sousa faleceu na capital da República e foi sepultado no Cemitério São João Batista no dia 7 de setembro de 1918 com "um dos maiores acompanhamentos de que há memória", segundo registrou o jornal "O País" no dia seguinte.

Escreveu as seguintes Obras literárias.

O Cacaulista, publicado sob o pseudônimo de Luís Dolzani pela Tipografia do Diário de Santos, Santos - romance (1876)

História de um pescador, publicado pela Tipografia do Diário de Santos, Santos - romance (1876)

O Coronel Sangrado, publicado na Revista Nacional de Ciências, Artes e Letras, São Paulo - romance (1877) e em volume na Tipografia do Diário da Manha, São Paulo, 1882 (sob pseudônimo de Luís Dolzani)

O Missionário, publicado sob o pseudônimo de Luís Dolzani pela Tipografia do Diário de Santos, Santos- romance (1891)

O Missionário, segunda edição revista pelo autor e com um prólogo de Araripe Júnior, publicado em dois volumes pela Editora Laemmert, Rio de Janeiro

Contos Amazônicos, publicado pela Editora Laemmert, Rio de Janeiro, (1893)

O Missionário, terceira edição, sob a direção de Aurélio Buarque de Holanda (que fez o prefacio, a revisão e o apêndice), publicado pela Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1946.

Obras jurídicas e artigos publicados

Artigos e ensaios de critica literária e filosófica - publicados no jornal Lábaro, Recife (1873)

Reforma e Regulamento da Instrução Publica, Aracaju, Sergipe, (1881)

Relatório com que o Exm. Sr. Dr. Herculano Marcos Inglez de Souza entregou no dia 9 de dezembro de 1882 ao Exm. Sr. Dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada Junior a administração da Província do Espírito Santo.

Títulos ao portador no direito brasileiro, Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, (1898)

Projeto de Código Comercial, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, (1912)

Na Academia Brasileira de Letras foi fundador da cadeira 28.

Cronologia

28 de dezembro de 1853 - Nasce em Óbidos (Pará)

1875 - Escreve O Cacaulista, publicado em Santos em 1876

1876 - Forma-se pela Faculdade de Direito de São Paulo

1877 - Publica em Santos O Coronel Sangrado

1878 - Em maio é nomeado Secretário da Relação de São Paulo no Governo do Conselheiro João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu; em dezembro casa-se em Santos com Carlota Emília Peixoto, sobrinha-bisneta de José Bonifácio de Andrada e Silva;[5] funda o jornal Diário de Santos; funda o jornal Tribuna Liberal; funda com o Dr. Antônio Carlos a Revista Nacional de Ciências, Artes e Letras; elabora o projeto de criação da Escola Normal de São Paulo

1880-1881 - Deputado da Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo (Império: 23ª Legislatura)

1881 - Funda a revista A Ilustração Paulista

1881-1882 - Nomeado Presidente da Província de Sergipe (Lei Saraiva)

1882 (Março a dezembro) - Nomeado Presidente da Província do Espírito Santo

1882-1883 - Deputado da Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo (Império: 24ª Legislatura)

Perde a nomeação à Assembleia Geral e abandona a política

1883 - Advoga em Santos

1888 - Escreveu O Missionário

1890 - Muda-se para São Paulo e durante a política do encilhamento funda o Banco de Melhoramentos de São Paulo

1891 - Publica O Missionário, escrito em 1888.

1892 - Muda-se para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil

1894 - E convidado e aceita lecionar na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro

1896 - Participa da criação da Academia Brasileira de Letras e redige o projeto de estatutos.

1897 - Na sessão de 28 de janeiro foi nomeado tesoureiro da Academia.

1898 - Publica Títulos ao Portador no Direito Brasileiro

1899 - Revisa e publica a segunda edição de O Missionário

1902 - Nomeado diretor da Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro

1908 - Presidente do Instituto da Ordem dos Advogados; preside o 2° Congresso Jurídico Brasileiro

1916 - Representa o Brasil no Congresso financeiro Pan-Americano em Buenos Aires, Argentina, no qual é escolhido Presidente da Comissão para a unificação da legislação sobre letras de câmbio

6 de setembro de 1918 - Morre no Rio de Janeiro

 Bibliografia

ANDRADE, Oswald, Dois Emancipados in O Romance Brasileiro de 1752 à 1930, Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, 1952, paginas 175-178.

ARARIPE JUNIOR, Tristão de, in Literatura Brasileira, Movimento de 1893, Rio de Janeiro, Democratica Editora, 1896, paginas 125-130

IDEM, Prólogo da 2a edição de O Missionário, Rio de Janeiro, Laemmert, 1889, paginas 7-40.

Autores e Livros, Suplemento Literario de A Manhã, volume 1, n° 4, 7 de setembro de 1941.

BARBOSA, Francisco de Assis, Romance, Novela e Conto no Brasil, Cultura, Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura (MEC), n° 3.

IDEM, Inglês de Sousa visto por Paulo Inglês de Sousa in Retratos de Família, José Olimpio Editora, Rio de Janeiro, 1954, paginas 143-155.

BUARQUE de HOLANDA, Aurélio, Prefacio da 3a edição de O Missionário, Rio de Janeiro, Editora O Cruzeiro, 1952, paginas 167-174.

CAMPOS, Humberto de, in Carvalhos e Roseiras, 4a edição, Rio de Janeiro, José Olimpio Editora, 1935, paginas 130-135.

CARMO FIGUEIRA, Lauro Roberto, A recepção dos Contos Amazônicos de Inglês de Sousa, in Espaço Cientifico, volume 6, número 1/2 de 2005, ISSN 15185044, paginas 57-62 [1]

CASTELO, José Aderaldo, Aspectos de Realismo-Naturalismo no Brasil", in Panorama, Washington D.C., Pan-American Union, vol. III, n°9, 1954, paginas 53-55.

DIAS CORRÊA, Oscar, O ficcionista Inglês de Sousa (Conferencia proferida na Academia Brasileira de Letras, a 29 de abril de 2003, durante o ciclo Fundadores da ABL, in Revista Brasileira, Fase VII, ano X, n°37, outubro à dezembro de 2003, paginas 149 à 165

Inglês de Sousa, Paulo, A vida de Inglês de Sousa, in A Manhã, Suplmento Autores e Livros, volume 1, n° 4, 7 de setembro de 1941.

JOSEF, Bella, Inglês de Sousa, Textos Escolhidos, série Nossos Clássicos, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1963.

MARQUES, Xavier, Elogio de Inglês de Sousa, in Discursos Acadêmicos, volume V, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1936, paginas 89-113.

MIGUEL PEREIRA, Lucia, Inglês de Sousa, in Prosa de Ficção de 1870 à 1920 (História da Literatura Brasileira, volume XII), Rio de Janeiro, José Olimpio Editora, 1950, paginas 155-164.

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MONTELO, Josué, A Ficção Naturalista: Aluisio de Azevedo, Inglês de Sousa, Julio Ribeiro, Adolfo Caminha in A literatura no Brasil, volume II, Rio de Janeiro, Editora Sul-Americana S.A., 1955, paginas 49-74.

MONTENEGRO, Olivio, Inglês de Sousa, in O romance brasileiro, Rio de Janeiro, José Olimpio Editora, 1938, paginas 71-82.

NEEDELL, Jeffrey D., A Tropical Belle Epoque, Cambridge University Press, Cambridge, Inglaterra, ISBN 0521333741, paginas 93-95, 102, 103, 111, 114 e 183

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SOUSA, Alberto,Os Andradas, Tipografia Piratininga, São Paulo, 1922, volume III, página 287.

VERISSIMO, José, Estudos de literatura brasileira, 3a série, Rio de Janeiro, Garnier, 1903.

WERNECK SODRÉ, Nélson, in História da Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, José Olimpio Editora, 1960.

[editar] Ligações externas

Biografia no sítio da Academia Brasileira de Letras

O Missionário

Tentação e A quadrilha de Jacob Patacho

Relatório com que o Exm. Sr. Dr. Herculano Marcos Inglez de Souza entregou no dia 9 de dezembro de 1882 ao Exm. Sr. Dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada Junior a administração da Província do Espírito Santo.

Relatório com que o exmo. sr. dr. Herculano Marcos Inglês de Sousa entregou no dia 9 de dezembro de 1882 ao exmo. sr. dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada a administração da província do Espírito Santo

Referências

↑ a b JOSEF, Bella, Inglês de Sousa, Textos Escolhidos, série Nossos Clássicos, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1963, pagina 4

↑ São Paulo (Estado). Assembleia Legislativa, Legislativo Paulista: Parlamentares, 1835-1998 , Auro Augusto Caliman (coordenador), São Paulo, Imprensa Oficial, 1998, Capítulo Os deputados do Império, páginas 58 a 60.

↑ INGLÊS DE SOUSA, Herculano Marcos. Relatório com que o exmo. sr. dr. Herculano Marcos Inglês de Souza entregou no dia 9 de dezembro de 1882 ao exmo. sr. dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada Júnior a administração da província do Espírito Santo

↑ FILHO, Rodrigo Octávio Inglês de Sousa - 1° centenário de nascimento, Rio de Janeiro, pagina 28.

↑ SOUSA, Alberto,Os Andradas, Tipografia Piratininga, São Paulo, 1922, volume III, página 287

 

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