O Perigo que ninguém conta sobre as ondas pequenas

Sabe a frase que diz que “os piores venenos estão nas ondas pequenas?”  Eu sei que não é bem assim a frase, mas bem que poderia ser.

No surf ou em qualquer outra prática na sua vida é normal você começar de baixo e aos poucos ir subindo os níveis. Na verdade isso faz parte de uma regra básica de sobrevivência, pois é quase um suicídio entrar em um mar onde você não está preparado(a) fisicamente e mentalmente para tal coisa.

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Porém, a vida é um pouco mais subjetiva que isso, e para encontrar nosso equilíbrio às vezes é preciso perder o equilíbrio. Para mantermos fiéis a nós mesmo é preciso mudar muito, ou aquela água quase parada de pequenas ondas podem apodrecer por falta de oxigenação e virar um verdadeiro veneno a sua saúde.

COMEÇANDO COM ONDAS PEQUENAS

ondas pequenas aprender

Qualquer processo de aprendizagem é mais lento em seu início. Um bom exemplo disso é aprender a tocar um instrumento musical, como o violão. Nos primeiros dias você memoriza onde cada dedo vai ficar, depois vai se preparando mentalmente para trocar as posições dos dedos para a nota seguinte.

Passado algum tempo de treinamento, aqueles movimentos são quase automáticos. Você não precisa mais “pensar” para executa-los. Isso acontece com quase todas as práticas de nossas vidas, que treinamos exaustivamente e fazemos daquilo um hábito.

cérebro meditação

Na verdade isso é um truque que nosso cérebro utiliza para economizar energia. Tarefas novas exigem muita energia dele, então quando interiorizamos certas práticas é como se o cérebro jogasse a execução desses movimentos para um departamento que demande menos energia dele. Dessa forma não desperdiçamos tanta energia e abrimos vaga na parte mais ativa do cérebro para novas tarefas que são mais desafiadoras.

Quando nos habituamos a executar aquelas tarefas é quando entramos no que chamamos de “automático”. Você já deve ter percebido esse automático quando aprendeu a ficar em pé na prancha e treinou muito. Hoje você nem percebe como está fazendo o movimento de subir, simplesmente faz. Se você já se habitou a isso, essa tarefa está no departamento de “automáticos” no cérebro e está consumindo quase nada de sua energia.

O PERIGO DO “AUTOMÁTICO”

robô automatico

Como tudo na vida, precisamos manter o equilíbrio das coisas para que tudo realmente flua. Só que muitas vezes caímos no erro que para continuar evoluindo é preciso fazer as mesmas coisas que vínhamos fazendo antes, ou seja, sem sair do modo “automático”. O tradicional “time que está ganhando, não se mexe.” Essa frase cairia bem se a vida fosse estática, mas a vida é como o mar e está em constante mudança e para seguir tendo os “mesmos resultados de evolução” é preciso mudar muita coisa.

Nos esforçamos para conseguirmos tal coisa e assim que conseguimos, paramos. Como quem passa em um vestibular ou concurso público e acha que depois disso tudo está resolvido. Entramos na zona de conforto e é aí que as pequenas ondas tornam-se extremamente perigosas. Perigosa não por ser um possível risco de vida que podemos estar correndo, mas pelo risco de “Não vida” que começamos a correr.

SURFAR(viver) É MAIS DO QUE SUBIR NA PRANCHA

surfar mente

Depois que aprendemos a surfar(ou fazer outra atividade) corremos o risco de nos acomodarmos e querer cair sempre no mesmo pico, com a mesma prancha com os mesmo amigos(a). Nos acostumamos a falar “Vamos para o mesmo lugar de sempre, lá as ondas são garantidas.” Falamos isso por medo de não conseguir surfar uma onda nova, maior ou simplesmente por comodismo mesmo.

Esquece que o surf não é apenas subir em cima da prancha. Surfar também é a conversa durante a viagem até o pico, explorar novos locais, a vaca, a bomba, os perrengues… Surfar assim como viver é um kit completo de ótimas experiências e outras nem tão boas assim.

Viver só um lado dessas experiências e achar que está realmente vivendo ou surfando, pode ser um erro. É como achar que é bom cozinheiro(a) por apenas assistir programas de culinária, mas nunca testou fazer nenhum prato sequer. O conceito do surf é algo muito mais amplo que um simples esporte, e só ficar em pé na prancha não necessariamente te faz um(a) surfista.

A GENTE SE ACOSTUMA, MAS NÃO DEVIA

Já sabemos nos posicionar como ninguém no nosso pico onde somos locais, começamos a fazer amizades por lá, conhecemos o melhor local para estacionar, pessoas que liberam seu chuveirão para um banho de água doce… Tudo isso vai nos acomodando, essas pequenas regalias são as perigosas ondas pequenas que falei no começo do texto.

Por comodismo começamos a nos contentar com pouco, nos viciamos em rotina e nos viciamos com pequenas porções de liberdade, pequenas porções de amizades, pequenas porções do que pode ser o surf e pequenas porções do que é a grandiosidade da vida.

Então, sem percebermos estamos trocando a oportunidade de conhecer novas paisagens por saber onde estacionar melhor o carro. Trocamos a possibilidade de uma longa viagem regada a risadas e conversas, por uma curta trip, para chegar mais cedo em casa e poder ver aquele seriado sobre amigos fazendo uma trip. E assim essas pequenas ondas vão nos engolindo e nos corroendo aos poucos.

ZONA DE CONFORTO (DESCONFORTO)

zona de conforto surfar

O cachorro e o prego

Um homem para em um posto de gasolina qualquer, e avista um velhinho perto da bomba de combustível e ao seu lado um cachorro deitado, que uivava de dor.

O homem pede para o velhinho abastecer o carro e fica observando intrigado com o cachorro, que não parava de gemer.

– O que acontece com esse cão? Por que ele não para de uivar?

– Perguntou o homem ao velho.

– Ah! É porque ele está deitado em uma tábua.

– Só por isso?

– Bem, é que na tábua há um prego.

– Sei… E porque ele simplesmente não sai de cima do prego?

– Meu amigo – responde o velhinho , é porque a dor é suficiente apenas para que ele gema e se lamente. Mas não é suficiente para que ele saia de cima do prego.

E aí? Se identificou? A tábua que isolava o cachorro do chão frio, são as pequenas comodidades que vamos nos habituando em nossa jornada, são as ondas pequenas. Porém, toda tábua tem seu prego e esse prego é nossa consciência cobrando coragem, vitalidade e potência de viver.

zona de conforto na verdade é desconfortável. Ela vai nos minando aos poucos como o prego da história. E aos poucos começamos a nos tornar “reclamadores da vida” como o cachorro. Simplesmente porque nos contentamos com a tábua, achando que é o melhor que conseguiremos.

O DESCONFORTO É NOSSO MELHOR MESTRE

meditação mestre surf

Estenda seus limites, volte a cair da prancha tentando algo novo. Não cair não significa que você é perfeito. Significa que provavelmente você não está fazendo nada além do seu convencional. Provavelmente está levando uma vida(surf) mais ou menos. Vida mais ou menos não é vida.

“Embora quem quase morre ainda vive, quem quase vive já morreu.” – Sarah Westphal

Apenas o desconforto nos ensina algo. Somente quando estamos longe do nosso “automático” é que estamos realmente vivendo. Já assistiu o filme “Click” com Adam Sandler? Retrata exatamente a falta de vida quando estamos sempre no modo automático. Quantas vezes você voltou pra casa e não lembra nada do caminho? Pois é! Você estava no automático e seu cérebro praticamente não registrou aquilo.

A noção que os dias estão passando cada vez mais rápido, vem desse aumento de momentos que passamos no automático.  Se você não quer chegar ao fim da sua vida como um zumbi, do qual não lembra quase nada do que fez, acrescente vida a seus dias e tente uma coisa nova a cada dia. Faça novas conexões em seu cérebro, se desafie e viva cada momento seja ele bom ou ruim.

Precisamos parar de ver o desconforto e a queda com tristeza como crianças na vida, que apenas chora diante das dificuldades. Temos que lançar um novo olhar desafiador e aprender sobre essas coisas como um adulto.

Então, na próxima onda grande que apontar no seu horizonte, reme para ela com toda energia de vida que tiver e se jogue. Se conseguir doma-la, sucesso! \o/ Se cair é normal! São as provas de suas tentativas. Se refaz e se prepara para a próxima, pois é assim que realmente se vive.

“Ostra feliz não faz pérola.” – Rubem Alves*

*A pérola é o resultado de uma espécie de defesa de organismo do molusco a um invasor – organismo externo que pode ser desde um grão de areia até um parasita.

Boas ondas! \o/

Fonte alonesurf.com.br