‘mil novecentos e oitenta e oito’

Praia do Atalaia em um swell clássico sendo fotografado de cima do mirante que hoje é dominado por mansões. Foto Denys Sarmanho im@ges

O ano era mil novecentos e oitenta e oito, o dia, seis de fevereiro, a hora marcava oito e trinta da manhã, a praia era a do Atalaia,  e o município era o de Salinópolis, no Estado do Pará.

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Realizamos incontáveis ‘surf trips’  para Salinas, partindo de Belém do Pará.  Regularmente saímos na madrugada de sexta para sábado, para poder amanhecer no pico e aproveitar o máximo o dia de surf, o domingo, e retornar depois do pôr do sol, chegar em Belém por volta de onze horas/ meio noite- esgotados, para mais uma segunda feira de aulas.

Eu não tinha carro, mas era um dos, senão, o mais fissurado surfista da minha turma, existiam outros, mas eu formava as barcas, organizava os horários, acordava primeiro e  enquanto contactava uns, ja acordava outros insistentemente batendo de madrugada nas suas portas. Cada membro da ‘trip’ era fundamental para irmos e voltarmos, a grana era curta e o racha feito por todos, era necessário para o sucesso da viagem. Alguns davam mais, outros davam menos, e tinha também os que levavam bastante alimentos, e iam só com a grana da ida, e vendiam uma camisa ou uma bermuda na praia para contribuir com o sagrado combustível da volta.

E assim era final de semana sim, e o outro também, pranchas, parafinas, rede, bolachas, leite, arroz, protetor, fitas cassetes, tudo levávamos para poder gastar o menos possível, após de um final de semana de surf, a gente voltava já pensando no próximo.

Márcio Vahia era um dos surfistas de Belém do Pará que participava de nossas incontáveis barcas para o litoral salinense. Foto praia do Atalaia/ Denys Sarmanho im@ges

Duzentos e dez quilômetros para ir, outros duzentos e dez quilômetros para voltar, a turma do colégio não entendia mesmo esse esporte, mas o bronzeado cintilante na pele e o sorriso estampado na face, era invejado, e tinham as gatas, que ‘pagavam’ para o ‘life style’ da beira de praia, em uma cidade urbana e sem a ‘vibe’ que rola nos litorais.

Podia ficar digitando aqui  por horas a fio, e lembrando de roubadas homéricas, as ondas de sonhos, as manobras repetidas vezes executadas até chegar a perfeição, da turma unida, alegre, feliz ao extremo por estar distante e longe do pré conceito da época.

Não havia compromisso com nada, apenas com o surf…. e assim vivi  longos e longos anos, a maior parte de minha juventude e de minha puberdade, e assim vivo até hoje, fora do sistema, sem grana, mais feliz e morando perto do mar.

Praia do Atalaia quebrando de gala. Foto Denys Sarmanho im@ges

…. o vento se manifestava através de uma fraca brisa pela manhã, e que certamente ao longo do dia se transformaria em fortes rajadas. Os poucos locais  já  haviam relatado que chovera a noite toda, e o odor de maresia e a umidade do ar pela manhã em nossos cérebros  faziam  a fissura aumentar. Ondulações jaz marchando a todo o vapor no horizonte de nosso ainda outrora desabitado litoral, as séries alinhadas de cinco a seis pés comungavam com o fundo do mar e quebravam incrivelmente perfeitas no compacto e extenso fundo de areia branca e limpa, e para melhorar ainda mais, não haviam muitos no pico, nós éramos o ‘crowd’.

Só nos restava delirar com as bombas quebrando com um bom tamanho e a rara formação, e ficar de molho dentro d’água…

Sandro Rogério, nativo do Atalaia, na época apenas um pirralho, incentivado pelos belenenses, hoje um dos melhores. Foto Praia do Atalaia/ Denys Sarmanho im@ges
O cocal que faz da ilha do Atalaia um local inesquecível de se visitar. Foto Denys Sarmanho im@ges

Informações extraídas das anotações do  estudante e surfista Denys Sarmanho, e de suas lembranças.

Por Denys Sarmanho/ Terra do surf/ Craud.net

A praia do Atalaia quando funciona é o melhor e mais acessível pico de água salgada dos moradores da capital paraense e adjacências. Foto Denys Sarmanho im@ges
Atalaia quebrando perfeito em frente a entrada principal da praia. Foto Denys Sarmanho im@ges
Denys Sarmanho continua na atividade até hoje, e não pretende parar de sonhar acordado. Foto sarmanho im@ges